É seguro parir em casa?

É seguro parir em casa?

A cena é clássica: a grávida começa a ter dores e contrações, grita, se contorce, faz um alarde desesperado e assusta todo mundo que a rodeia, até que todos rumam apressadamente para o hospital mais próximo. Quantas vezes você já assistiu a essa cena em novelas e filmes e acha que é assim na vida real? O nascimento de um bebê é encarado como um evento médico, um problema a ser resolvido – o mais rápido possível – dentro de uma instituição hospitalar, com todo tipo de tecnologia e profissionais à disposição.

Mas, para a surpresa de muitos, o parto é um evento fisiológico. O que isso quer dizer? Que assim como comer, respirar, fazer sexo e ir ao banheiro, por exemplo, parir é algo que a mulher é capaz de fazer sozinha, seguindo os comandos naturais de seu próprio corpo, sem que ninguém precise ensinar, resolver ou medicar. Em alguns casos, a grávida realmente precisará de um suporte hospitalar, médicos e tecnologias, mas, na maioria dos casos, não.

Nesse sentido, o parto domiciliar aparece como uma ótima escolha para as grávidas de risco habitual (ou seja, as de baixo risco). Ter o bebê em casa é uma opção segura, confiável e bastante respaldada por estudos recentes. E, antes de achar que parir em casa se trata de uma nova moda, é importante lembrar que bebês nascem em casa há séculos e foi assim que a humanidade se tornou o que é hoje. A evolução da medicina veio como um presente, afinal, pode salvar as mulheres que possuem complicações em suas gestações, mas essa evolução não invalida a opção de parto domiciliar como uma escolha segura para as grávidas que não tenham qualquer tipo de problema.

Quem pode parir em casa?

Para ter o bebê em casa, a gravidez precisa ser de baixo risco, o que significa não ter nenhuma doença prévia, como diabetes e hipertensão. Além disso, a gravidez também precisa transcorrer sem nenhum tipo de complicação. É recomendado que o pré-natal seja feito com a equipe que dará assistência ao parto, desde o primeiro trimestre, assim se faz uma construção sólida de vínculo com a equipe. Isso é fundamental para o parto em casa, já que a confiança é essencial para o bom andamento do processo. Através desse acompanhamento periódico, a equipe vai monitorar a saúde da gestante através da realização de exames clínico e obstétrico e da avaliação de exames laboratoriais.

Caso qualquer tipo de problema seja identificado, a orientação é que essa gestante seja encaminhada para um acompanhamento pré-natal com profissional médico. O parto acontecerá no hospital e, dependendo do caso, pode ser um parto vaginal e inclusive natural, ou seja, livre de intervenções. Isto dependerá do quadro clínico e obstétrico da parturiente e da avaliação médica na ocasião. Essa recomendação de mudança do local de parto pode ser feita durante ou pré-natal ou mesmo ao longo do trabalho de parto.

shutterstock_99350009Chegou a hora do parto. E agora?

Não é preciso morar ao lado do hospital para parir em casa, porém é de fundamental importância a definição de um “plano B” previamente. Este plano inclui a escolha de uma maternidade caso seja necessária a transferência e do médico de backup em caso de maternidade privada.

Também não é necessário ter uma ambulância equipada com UTI estacionada na porta de casa quando se opta por um parto domiciliar. A equipe que irá fazer o acompanhamento leva os equipamentos necessários para dar assistência de emergência à mãe e ao bebê em casa, caso seja necessário. É importante esclarecer que muitas intercorrências são causadas por intervenções iatrogênicas hospitalares (uso indiscriminado de ocitocina sintética, ruptura artificial da bolsa, puxos dirigidos, entre outros). Cada intervenção desnecessária – extremamente comum em ambientes hospitalares – aumenta o risco de complicação no parto. Portanto, o parto domiciliar, em sua essência, deve ocorrer livre de quaisquer intervenções.

Outro fator importante a ser considerado é a forma com que os profissionais que dão assistência ao parto domiciliar trabalham. A observação e o monitoramento criterioso e minucioso da mulher e do bebê durante o trabalho de parto é um instrumento valioso para identificação de algum sinal de risco. Uma vez identificado um problema ou um potencial problema, é avaliada a possibilidade de transferência hospitalar com tempo e segurança.

No caso da transferência acontecer, nem sempre a equipe de parto domiciliar poderá continuar assistindo à parturiente, isso dependerá da instituição escolhida. Em alguns locais, somente é permitida a entrada de um acompanhante. Por isso, a importância da definição de um bom “plano B”. Além de realizar uma transferência com segurança, ter um profissional médico de backup facilita o acompanhamento, fora o fato de que o histórico da gestante já será conhecido pelo profissional que irá atendê-la. Porém, é importante salientar que, mesmo com o plano B, uma vez internada em um hospital, as condutas são definidas pelo profissional da maternidade e não mais pela equipe de parto domiciliar.

O parto domiciliar é seguro?

Ainda que o assunto esteja em alta ultimamente, o parto domiciliar planejado ainda é pouco praticado no Brasil. Somente em Belo Horizonte, MG, existe um modelo de acompanhamento de partos em casa pelo Sistema Único de Saúde, o SUS (1). Fora isso, os planos de saúde não cobrem esse tipo de parto, o que se pode conseguir é um reembolso dos valores gastos. Mas, no exterior, em especial na Europa esse tipo de parto é mais comum e diversos estudos comprovam sua segurança. Em um artigo escrito por Judy Cohain, CNM, ela destaca 17 estudos realizados ao longo dos últimos 15 anos demonstrando que o parto domiciliar planejado é mais seguro para mulheres de baixo risco do que o parto hospitalar. Em 12 dos estudos, as taxas de mortalidade perinatal (óbitos que ocorrem antes, durante ou imediatamente após o nascimento) ou foram inferiores ou similares para o parto em casa, enquanto as taxas de morbidade materna foram significativamente mais baixas, em comparação ao parto hospitalar (2).

Isso quer dizer que o parto domiciliar, para gestantes de baixo risco, é mais seguro que o parto hospitalar.

Além disso, as mulheres que optam por esse tipo de parto relatam uma satisfação grande – 97% das mães avaliadas se declararam muito satisfeitas e pouquíssimas sofrem qualquer tipo de intervenção – 4,7% de analgesia peridural, 2,1% de episiotomias, 1% de fórceps, 0,6% de vácuo-extrações e uma taxa global de 3,7% de cesarianas (3). São partos que dão certo, têm bons desfechos e não se tratam de aventuras ou falta de responsabilidade de quaisquer dos envolvidos. Além desses, existem outros estudos e evidências respaldando o parto domiciliar como uma excelente opção para quem deseja um atendimento mais humanizado e no conforto de casa (4).

shutterstock_119182921Para se ter segurança no parto em casa, é preciso:

1. Ser uma gestante de baixo risco;
2. Fazer o pré-natal adequado;
3. Escolher bem a equipe que fará o acompanhamento;
4. Traçar um plano B detalhado, em conjunto com a equipe

A escolha do local de parto é um direito reprodutivo da mulher e, portanto, ela deve ser respeitada e acolhida nessa decisão, independente de qual seja. Escolher parir em casa não significa um retrocesso ou falta de responsabilidade, já que há evidências científicas suficientes que demonstram a segurança do parto domiciliar.

E, por fim, a mulher deve se sentir confortável e livre para tirar dúvidas, mudar a equipe que tinha até se sentir totalmente à vontade com a opção escolhida, dar sugestões, concordar e discordar das condutas propostas. Ela deve sempre ser vista como a protagonista desse processo e saber que seus sentimentos a respeito das decisões sobre o parto são fundamentais para que tudo corra bem.

(1) http://www.sofiafeldman.org.br/2015/01/05/sofia-comemora-um-ano-de-parto-domiciliar/
(2) http://estudamelania.blogspot.com.br/2012/08/guest-post-o-mito-do-parto-hospitalar.html
(3) “Outcomesofplanned home birthswithcertified professional midwives: largeprospectivestudy in North America” http://bmj.bmjjournals.com/cgi/content/full/330/7505/1416?ehom in http://guiadobebe.uol.com.br/parto-em-casa-e-seguro/
(4) British JournalofObstetricsandGynecology (2009) – Perinatal mortalityandmorbidity in a nationwidecohortof 529,688 low-riskplanned home and hospital births. http://www3.interscience.wiley.com/journal/122323202/abstract?CRETRY=1&SRETRY=0

Quem são os profissionais capacitados para dar assistência ao pré-natal e parto natural?

Quem são os profissionais capacitados para dar assistência ao pré-natal e parto natural?

Você sabia que não é só o médico obstetra que está capacitado para acompanhar uma gestação e assistir um parto? Vários profissionais também recebem a formação adequada para esse acompanhamento, veja:

Enfermeira obstétrica: é a profissional formada em enfermagem que se especializou em enfermagem obstétrica pela residência ou pós-graduação.

Obstetriz: profissional que concluiu o curso de graduação em obstetrícia (bacharel).

Médico: formado em medicina e especializado em obstetrícia pela residência ou pós-graduação.

Médico da família: concluiu a faculdade de medicina e especializou-se em medicina da família e comunidade.

Parteira tradicional: dão assistência em comunidades mais remotas do interior. O conhecimento adquirido normalmente é passado de geração em geração, baseado na tradição e costume local. As enfermeiras obstétricas e obstetrizes também são conhecidas como parteiras urbanas por prestarem uma assistência que preservam a fisiologia do parto e nascimento.