Especial mês das mães – relato de parto da Luise

Especial mês das mães – relato de parto da Luise

O mês das mães vai chegando ao fim e a gente encerra nossas comemorações com o intenso e profundo relato de parto da Luise. A chegada da Maria mexeu tanto com ela (e com a gente) que é impossível não se emocionar a cada detalhe deste relato.

Confira!

***

Relato de parto da Maria

Quando eu descobri que estava grávida, meu único pensamento foi “eu não quero essa criança”. E esse pensamento vinha de forma recorrente, ecoava em lugares que eu não queria mexer e, principalmente, amadurecer. Sei que muitas pessoas pensam que com tantos métodos contraceptivos, engravidar sem querer é impossível hoje em dia. Mas, parece que tudo acontece somente com o vizinho… Julgamentos e ressentimentos à parte, aqui começou a minha história com a Maria.

Em meio a um relacionamento intenso e recente, tivemos a notícia da Maria. E todos os momentos que já eram vividos de maneira tão veemente, passaram a ter formas e dimensões triplicadas.

Todos, absolutamente todos, aceitaram e apoiaram a vinda da Maria. Menos eu.

Tentei me acostumar com a idéia de várias formas. A primeira dica que me deram, dois dias depois, foi comprar a primeira roupinha. E assim o fiz. Mas nada acontecia. Aquela roupa significava tudo que eu não queria naquele momento. E foi tudo que eu não quis pelos meses da gravidez.
Então resolvi tentar encarar as coisas de maneira melhor, me convencer diariamente do óbvio: aquela criança ia nascer e minha vida ia mudar completamente.

Mas a cada privação, a cada vontade de sumir, de beber, de tomar um remédio pra dormir, eu ficava mais chateada por estar grávida. Eu tinha acabado de sair de um emprego e antes de entrar em outro, recebi a notícia.

E assim fui levando, alternando dias de aceitação com dias de muita revolta.

Bem, antes de ficar grávida, já conhecia o trabalho do “Parto por amor”, porque a Mariana é cunhada do Marcio (pai da Maria). Ouvia as histórias, escutava falar muito em violência obstétrica, parto humanizado, cesarianas desnecessárias e, principalmente, no amor depositado no trabalho feito pelo grupo.

Antes, quando pensava no parto, me perguntava quem se submeteria, por livre vontade, à dor do parto normal, podendo fazer uma cesárea; não entendia absolutamente nada da gravidez e muito menos do parto. Na verdade, a gentileza das pessoas comigo quando viam que eu estava grávida me surpreendeu, porque eu não era tão gentil e nem admirava a barriga das grávidas.

Tirando o lugar na fila e nos assentos, a gravidez só me chamava atenção pela agonia que dava olhar para os barrigões. Pra mim, era uma coisa bem objetiva: um ser dentro do outro, nascendo em nove meses e dando muito trabalho. (eu sempre adorei crianças, mas a idéia de ter uma era surreal pra mim).

Então, já que eu ia ter mesmo um bebê, resolvemos chamar a Mariana, conversar mais sobre o parto; os prós e os contras, os mitos e as verdades. Assistimos ao documentário “O renascimento do parto”, lemos muitas coisas e ficamos apavorados com tudo que fazem para forçar as mulheres a uma cesariana. Porque para mim, o problema não é a cesárea em si. Cada um escolhe o que achar melhor. O problema está justamente nessa escolha: tem que ser feita de forma consciente, muito bem informada.

Assim, escolhemos fazer o parto com a Mariana e com a Camila, de forma humanizada. Lemos ainda mais, nos informamos ainda mais, e a cada consulta era mais um encontro comigo mesma, com as minhas questões, com a realidade que estava por vir.

Tive poucas semanas de enjôo, nada de azia e muita falta de ar nos meses finais. Ninguém nunca tinha me falado dessa falta de ar, que é de chorar de tanto desespero. Fora ela, a gestação foi ótima.

As contrações falsas começaram cedo. Durante a última consulta do pré-natal, com quase 39 semanas, a Camila conseguiu sentir três. Eu já não agüentava mais a barriga, o calor, a falta de ar, o incômodo dessas contrações.

Na quinta-feira comecei a sentir um desconforto maior, dormi mal, não tinha posição, um desconforto na barriga.

Na sexta de manhã, o tampão saiu e não nos “disse” nada, já que poderia parir naquele dia ou em semanas. Mas, na verdade, não precisava que ninguém me dissesse nada. Eu sentia que ia começar a acontecer, que o momento estava chegando.

O desconforto na barriga aumentou e à noite fomos à casa da Mariana, que estava preparando sua festa de aniversário pro dia seguinte. Aproveitei para tentar distrair, fazer as unhas mas, quando chegou no pé, não deu mais pra agüentar ficar ali sentada. Tomei um Buscopan, mas o desconforto só aumentava.

Falei com o Marcio que não dava mais pra ficar ali e então, sem alarde, viemos pra casa. Antes de deitar, tomei mais um Buscopan pra garantir (a Mari sempre dizia que quando eu tomasse e não fizesse efeito, era um sinal do trabalho de parto), mas não adiantou.

Tentamos dormir, mas as contrações começaram a ficar regulares. Resolvemos então levantar e encher a banheira. Ficamos conversando e comecei a ficar agoniada com a dor. Não parava de andar de um lado para o outro.

O mais engraçado é que a mesma certeza que eu tinha de que ela viria, ia de encontro à dúvida se era mesmo o trabalho de parto. Perguntava ao Marcio de 5 em 5 minutos se ele tinha falado com as meninas, se era mesmo o que estávamos pensando. Perguntei 1, 2,… 20 vezes!

Logo depois de encher a banheira as contrações ficaram mais fortes. Vinham mesmo como ondas e depois iam embora. Lembro que ali veio meu primeiro choro, na banheira que era um alívio para as contrações.

Eu sabia que ia doer. Eu tinha me preparado para essa dor. Mas, na hora, descobri que nada pode te preparar para uma dor tão forte. É como esperar uma brisa e se deparar com uma tempestade.

Fiquei a noite toda alternando entre a banheira e o chuveiro. Tentei descansar, mas a dor que era de uma cólica bem forte começou a aparecer nas costas e foi evoluindo pra região sacra.
O dia foi amanhecendo, as dores aumentando e vindo cada vez menos espaçadas. Primeiro chegou a Mariana e depois a Camila. E meu Deus, quanto carinho, quanta tranqüilidade. Brincamos que pareciam duendes flutuando pelo apartamento. Antes de fechar os olhos numa contração, elas estavam; quando abria, meio minuto depois, já não tinha ninguém.

Prepararam o ambiente com velas e aromas; checaram os batimentos da Maria (que se mantiveram ótimos durante todo o trabalho de parto); ofereceram líquidos, comida, massagem… Seguraram a minha mão e me passaram a calma que eu já estava perdendo naquele momento.

Em algum momento depois de cair no choro o Marcio me disse: “Já se passaram 16 horas… Você está indo muito bem”. Eu já não agüentava mais. Estava sentindo muito sono, já que não dormia bem desde quinta-feira. Chorava olhando pra cama, porque só queria uma hora de descanso. Como se o trabalho de parto pudesse ser interrompido…

A noite de sábado chegou e, fora a exaustão, a dor já estava se tornando insuportável. Eu gritei diversas vezes que não agüentava mais, que ia morrer, que queria ir para o hospital, mas no fundo, eu sabia que se quisesse mesmo ir, arrumaria minhas coisas e iria. Naquela hora, dizer que não agüenta mais e continuar ali, é sua forma de pedir apoio, de pedir algum tipo de ajuda para passar por mais uma contração.

A Mari tentava me acalmar dizendo para eu pensar que também estava sendo difícil para Maria, pra conversar com ela. Eu olhava pra cara dela e dizia “Difícil pra ela? Como assim? É ela que está saindo de mim!!!!”

Algumas horas depois, eu pedi para Mariana me tocar… Estava sentindo uma pressão, queria fazer força e ao mesmo tempo não queria. Queria ficar sozinha e com todos em volta. Queria ficar no chuveiro e queria ficar seca, de roupa. Queria tudo e não queria nada.

Bem, a Mari me tocou e estava com 5 de dilatação (na verdade eram 4, mas ela disse 5 para me animar). E aí eu não queria mais. Fiquei um pouco mais no chuveiro mas o cansaço era tão grande, que eu não conseguia ficar mais ali. Comecei a me arrumar e elas começaram a se preparar para a transferência. Era dia 13 de fevereiro. Dia do desfile das escolas campeãs, tudo parado. Não demoramos muuuuito para chegar, mas as contrações no carro foram bem difíceis. Uma mistura de sentimentos, a posição desconfortável. Ansiedade e desespero para chegar logo ao hospital. Porque quando você decide ir, quando chega no seu limite, parece que um minuto vai ser crucial pra sua dor.

Chegamos, a médica plantonista fez o toque e, sem saber que eu já estava em casa há 24 horas, disse: “você está ótima, está indo muito bem. Já tem 2 de dilatação”. Chorei, gritei, me desesperei de novo. Como assim 2 de dilatação?

E aí, ela me disse algo que por um minuto, entre uma contração e outra, me fez lembrar o motivo de querer passar por tudo aquilo, de querer tanto uma equipe humanizada. Quando perguntei se a minha obstetra, Dra Fernanda, já estava a caminho, ela me respondeu: “Olha, ela já está vindo sim. Mas, se você quiser, eu resolvo isso muito rápido. Não precisa ficar sentindo essa dor toda. Te dou anestesia, te opero rápido e vai tudo embora”.

Não, não era isso que eu queria. Eu queria ter a minha filha de parto normal, como tinha planejado. Queria que ela nascesse mais saudável, que minha recuperação fosse mais rápida. Que as horas que fiquei em trabalho de parto até ali, não fossem jogadas fora, porque não havia indicação alguma para cesárea.

E aí está o papel da equipe que você escolheu; o papel dos profissionais que te acompanharam, avaliaram suas expectativas e foram junto contigo até o final, de um propósito que você traçou: não te deixarem desistir.

Não se engane. Com dor, você vai pedir uma cesariana. Você vai gritar, vai chorar, vai desistir mil vezes. Vai dizer que está morrendo, que estão querendo te matar. Vai falar com todas as letras que não quer mais, que o plano inicial já era. Mas essas pessoas, que sabem da tua vontade real e não daquela vontade mascarada pela dor, estarão ali; te incentivando, te apoiando, tentando fazer você segurar mais um pouco, e mais, mais…

Mas mesmo tendo esse lapso de consciência, em poucos segundos que o Marcio me deixou sozinha na espera, fiquei procurando algo cortante. Não digo que cortaria a barriga, mas também não garanto que não cortaria. É simplesmente um mundo à parte.

A Dra Fernanda chegou e aí eu pensei “meus problemas vão acabar agora; acabou a dor”. Fomos para um quarto (e não para um centro cirúrgico). Esperamos por mais 20 minutos o anestesista e, então, descobri que na verdade seria uma analgesia. Foram 30 minutos sem dor. Depois, voltaram as contrações, o desespero, a vontade de morrer. Eu não conseguia visualizar a Maria saindo de mim. Pra mim, aquilo não ia acontecer e talvez fosse pela negação toda da gravidez, desde o início.

A temperatura ambiente e a penumbra que tinha em casa, continuaram no hospital. Todos em silêncio, ao meu lado. Na hora da analgesia, a Dra Fernanda me abraçou, colou testa com testa. A Mari e a Camila ao meu lado, segurando a minha mão. Colocaram uma música de boas vindas à Maria. O meu desespero ia de encontro a toda calmaria que elas me passavam. Todo carinho que eu podia sentir, mesmo com toda dor.

O período expulsivo veio e eu o defino com suor e lágrimas. É uma força além de você. Ainda que você queira descansar mais e não fazer força em uma contração, o seu corpo não te permite escolher. Uma força que eu não faço idéia de onde vem. Muito tempo sem respirar, poucos segundos de recuperação e lá vinha outra contração.

Eu só queria escutar de alguém que não dava mais. Queria que alguém parasse o tempo pra eu poder descansar um pouco; que alguém surgisse com outra solução que não envolvesse dor. Eu já não agüentava mais. Era como ser torturada sem que ninguém pudesse fazer nada.

Mas aí vinha outra contração e eu não podia deixar de empurrar. E outra, outra… até que a Maria começou a coroar e ficou ali por um tempinho. Lembro da última força que eu fiz pra ela nascer. QUE ALÍVIO!

Ela veio para o meu colo, quietinha, já mamando. Olhei pra equipe e todos muito emocionados. Eu peguei aquele bebê tão pequeno, depois de tantas horas e ali eu soube o que é amor de verdade. Ficamos ali, nos olhando, ela segurando o dedo do Marcio e só depois de um bom tempo a levaram para pesar – na mesma sala, perto de mim ainda.

Só aí escutamos seu choro. A Mari se aproximou dela, falou do mesmo jeito que falava com ela na barriga e pronto, ela ouviu sua voz e parou de chorar. Que momento mais lindo pra gente. Como tudo aquilo fez ainda mais sentido, por nos reafirmar a participação dela durante todo o processo. A confirmação que de verdade, aquele serzinho precisa de muita proteção desde a barriga, quando já está percebendo tudo que acontece aqui fora.

Mais uma contração, a placenta saiu… Dez minutos depois eu já queria levantar, tomar um banho e comer. Já estava sentada na cama de pernas cruzadas. Ainda assustada com o parto, ainda detestando ter passado por tudo aquilo, ainda me sentindo torturada, mas absolutamente feliz por não ter que depender de ninguém para segurar minha filha no colo, por não ter levado um ponto sequer.

Chamou muito a minha atenção o dia seguinte. Absolutamente todos os profissionais que entraram no meu quarto, no quarto de uma MATERNIDADE, se espantavam com o parto normal. Uma delas disse “então foi você a corajosa do hospital”. A outra me disse que nunca havia visto um parto normal… Em uma maternidade.

Isso é assustador, revoltante, absurdo e reafirma a importância desse grupo que eu escolhi para me acompanhar. Desse trabalho que elas desenvolvem que hoje parece ser realmente de formiguinha, em meio à esmagadora massa que, por mil motivos completamente errados, fazem da cesariana a via “normal” do parto.

Bem, eu não sei dizer os termos apropriados, não sei o que de fato aconteceu em termos médicos e também já não me lembro mais de tudo detalhadamente. Mas deixei para comentar aqui, quase no final, um dos principais papéis da equipe que eu escolhi. O papel do Marcio.

Nosso relacionamento à parte; todas as dúvidas, medos, conflitos à parte. Tudo de mais conturbado à parte. Foi isso que eu tive do Marcio em relação à Maria. Desde que eu descobri que estava grávida, ele quis muito a nossa filha, e entendeu, muito antes de mim, a beleza dessa relação que estava por vir. E ele foi assim até o final. A cada contração, a cada grito, dor, desespero, ele ficou comigo, participou de tudo, cortou o cordão umbilical. Ele estava presente mesmo, entregue de coração para aquele momento tão especial nas nossas vidas.

Em todos os momentos que eu relatei aqui no texto, ele certamente estava presente, segurando a minha mão, me observando de longe. Sofrendo, da maneira que lhe cabia, mas sofrendo junto comigo, super emocionado. Só foi descansar porque as meninas disseram que seria bom dar esse tempo para mim.

Então hoje, junto à todas as lembranças que eu tenho do parto, as partes mais doces se devem a ele, que quis muito e que acreditou muito também, mesmo quando tinha alguma dúvida. Cada sussurro de força, de palavras de amor e de coragem, ficarão eternamente gravados em minha memória nesses instantes tão meus, que ele fez com que fossem tão nossos.

Então para sempre, à parte de tudo que diga respeito ao nosso relacionamento, ele estará presente nas minhas melhores lembranças, com todo carinho e gratidão, que hoje carrega junto também o meu amor.

O parto não é doce, bonito e mágico na hora em que acontece. A dor, que dizem que não é de morte, não se mostra diferente naquele momento. É pura e simples, na sua forma mais intensa. Com dor, eu só queria que aquela agonia parasse, e jogaria todos os planos por água abaixo, mandando ir para o inferno aquele papo todo da gravidez de humanização.

Mas depois que a minha filha nasceu eu entendi. Entendi o que significa trazê-la ao mundo com mais segurança, com mais saúde, em um ambiente preparado especialmente para nós duas, nós três. A intensidade do parto foi tão grande; foi uma doação de energia tão surreal, que eu tenho certeza que não poderei experimentar isso em qualquer outra experiência na minha vida.
Depois dela, eu entendi a minha mãe. Entendi verdadeiramente todas as frases de desespero – que para mim era até então desnecessário – que ela falava quando qualquer coisa acontecia comigo.

Entendi esse sentimento mágico, que com certeza não há como sentir por qualquer outra pessoa no mundo. Vi o respeito que as mães merecem, “apenas” por serem mães.

Me tornar mãe foi algo transformador. Foi um verdadeiro encontro com tudo que eu queria deixar de lado, tudo que lá no início também me atrapalhou a aceitar a gravidez. Ser mãe é um enfrentamento diário das minhas questões… É sinônimo de superação. Hoje, tenho certeza que sou uma pessoa muito melhor do que há alguns meses.

É claro que o fato de ser mãe não transforma alguém em uma santidade. É que, em verdade, você entende a santidade que existe em gerar um outro alguém, o seu verdadeiro amor.

Obrigada Mariana e Camila, por terem me acompanhado nesse momento tão único na minha vida. Por terem me ajudado a enxergar que a humanização do parto começa por nós, por cada mínima escolha na construção de um sentimento tão maior.

Ser mãe é muito mais complexo do que a escolha da via de um parto mas, com certeza, essa escolha consciente, é o início das opções que fazemos única e exclusivamente por amor. Amor a nós mesmas e aos nossos filhos. Amor, simplesmente por amor.

Especial Dia das Mães – Relato de Parto da Carla

Especial Dia das Mães – Relato de Parto da Carla

Para esse dia das mães, a gente quis trazer um conteúdo especial. Para isso, convidamos algumas mães que pariram com a nossa equipe para contar como foi e relembrar esse momento tão incrível que é o nascimento de um bebê.

Com vocês, Carla Sento Sé relatando o nascimento da Maria. Preparem os lencinhos!

***

A descoberta – nosso milagre

Muitos dizem que a mulher sempre sabe quando está grávida.

Eu não sei se já sabia… Mas meu corpo foi mostrando sinais, dia após dia.

Com uma semana de fecundação, passei a sentir ondas de cólica (a famosa cólica da nidação). Eram hiper suportáveis e realmente eram ondas. Nunca havia sentido isso antes. Cheguei a comentar com a Rachelli, durante o plantão e ela disse: ¨Você está grávida!¨. E eu respondi: ¨Não estou não¨. Na verdade, eu queria muito estar, mas tinha medo de criar expectativas.

Ao mesmo tempo, comecei a me interessar por tudo o que estava ligado ao universo dos bebês. Passava horas na internet pesquisando sobre quartos montessorianos.

Poucos dias depois, durante um plantão, lá fui eu fazer uma atividade rotineira: organizar o armário dos materiais de histopatológico. Foi abrir a porta do armário e o vômito chegou com toda força a boca. Fechei o armário imediatamente e respirei fundo. Isso nunca havia acontecido.

Neste e nos demais plantões, tornou-se uma missão impossível examinar qualquer gestante. Era eu ser chamada, entrar nas salas de parto e os odores (nunca antes percebidos) eram insuportáveis. Era uma vontade absurda de vomitar. Era muito muito muito enjoo. E, eu sempre falava para os demais profissionais do plantão: ¨Nossa, creio que pode ser uma vaginose. Temos que ficar de olho¨. E, todos os profissionais eram categóricos: “Não estou sentindo cheiro nenhum”. Ali comecei a desconfiar que realmente eu poderia estar gestante e meus olhos se encheram de lágrimas.

Como controlava minha temperatura basal, percebi que dia após dia ela se mantinha lá nas alturas, com mais ou menos 0,5º acima da média. E aí, a fase lútea, que geralmente durava 12 dias, já tinha 23 dias.
Completado uma semana de atraso menstrual e com 24 dias de fase lútea, decidi fazer o TIG, sem contar a ninguém. Eu não queria gerar falsas expectativas, principalmente no Rapha, que estava louco para ser pai.

Comprei o teste no dia 27 de novembro. Guardei-o e decidi fazer só no dia 28. Fiz o xixi, armazenei no potinho e lá coloquei a tal da fita. Imediatamente apareceram duas listras super fortes. Eu não podia crer no que meus olhos viam. Fiquei muito nervosa. Tremia-me por inteiro. Era tanta felicidade que eu não cabia em mim.

Na mesma hora sai do banheiro, ajoelhei-me diante do altar de Nossa Senhora de Fátima e agradeci. Chorei muito e agradeci. Naquele momento Entreguei e Consagrei meu filho a Ela. Naquele momento agradeci e disse a Maria que carregava em meu ventre mais um filho dEla. E agradeci a oportunidade de gerar no meu ventre um milagre de Deus.

Eu não sei quanto tempo passei ali, ajoelhada. Mas nunca me esquecerei desse momento, quando não me sentia ali, mesmo estando ajoelhada no chão. Foi mágico.

Eu estava radiante. Estávamos com uma viagem marcada a Petrópolis no dia seguinte. Era um bate volta super rápido. Então, decidi que só contaria ao Rapha no dia seguinte. Eu queria fazer uma surpresa.

O dia 29 de novembro amanheceu e com ele chegaram os primeiros vômitos (era uma baita hiperêmese se anunciando, mas eu só saberia disso nos próximos dias). Foram 6 episódios em menos de 1 hora, mas nada estragava minha felicidade. Eu vomitava, colocava a mão no ventre e dizia: ¨Fique tranquilo aí, não é culpa sua. A Mamãe te ama muito¨.

Os vômitos se seguiram e devo ter chegado a uns 20 episódios pela manhã. Mas, eu queria fazer a surpresa para o Rapha. Entre um vômito e outro consegui produzir um móbile de feltro, com corações rosa e branco (as cores foram escolhidas para combinar com o teste de farmácia, que também era rosa e branco). Pendurei o teste na ponta do móbile e entre os corações uma tarja escrita “agora em mim batem dois corações por você”. Pendurei-o na porta do quarto que já era reservado para quando o bebê chegasse.

Fechei todas as portas e o móbile era super aparente. Aqui não tem nada pendurado nas portas. Então, era MUITO fácil visualizá-lo (#sóquenão).

Rapha chegou atrasado do trabalho e perguntou se já estava tudo pronto para viajarmos. Eu disse que não estava me sentindo muito bem, mas que ele tomasse banho para irmos. Ele abriu todas as portas, inclusive a do móbile e simplesmente NÃO VIU.

Repreendi-o e disse: “você não viu nada diferente na porta dos quartos?”. Ele respondeu: “não”. Ele retornou ao quarto, viu o móbile e com os olhos marejados e muito nervoso, olhou para mim e disse: “você está grávida?”. Fiz que sim com a cabeça, nos abraçamos longamente e choramos juntos.

Ali estava estabelecido o elo eterno entre nós 3. Éramos 3, mas naquele momento éramos apenas 1.
Esse foi o começo de uma jornada de 39 longas semanas de uma hiperêmese avassaladora, mas principalmente de interiorização.

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Ser Gestante e enfermeira obstétrica: uma dupla não tão “saudável”

Esse assunto merece um capítulo a parte (um dia escreverei sobre isso)

A Hiperêmese e eu

Descobrir-me grávida foi majestoso, como disse anteriormente. Mas, a gestação me trouxe a hiperêmese e essa não foi legal. Não mesmo.

Por ser enfermeira obstétrica, eu já havia cuidado de algumas gestantes com hiperêmese. Lembro-me de, durante a residência, ter ouvido a seguinte frase de uma profissional: “tem hiperêmese a gestante que não deseja o bebê. E por isso ela quer colocá-lo para fora, ‘vomitá-lo’”. Não… não era meu caso. Eu queria minha Pulga mais do que tudo.

Aqui abro um parêntese para dizer que não queríamos saber o sexo do bebê (na verdade, eu não queria e o Rapha acabou embarcando na minha… contrariando a expectativa de todos ao redor). Sempre achei a surpresa algo mágico. E, como o bebê sempre mexeu muito (comecei a sentir com 12,2sem), passamos a chamá-lo carinhosamente de Pulga.

A hiperêmese foi avassaladora. Fazendo uma conta por alto, com toda certeza vomitei mais de 1000 vezes durante a gestação. Cinco quilos a menos em 2 meses. Quem me conhece sabe que 5 quilos representa muito na minha superfície corporal (rs). Episódio de desidratação, hidratações venosas, medicações venosas, flebites, vonau, vonau, vonau… meu marido acabava com o estoque semanal de vonau da farmácia. A cura para a hiperêmese? A dequitação. Santa dequitação.

Mas a hiperêmese também serviu para me mostrar que sozinha eu não era ninguém. Eu, sempre extremamente independente para tudo na vida, não conseguia nem me alimentar. Recordo-me de passar uns 2-3 dias sem tomar banho. Aqui entra a Camila. Ela me salvou em váaarios momentos da gestação. A Camila é a irmã do Rapha, tia da Maria e enfermeira obstétrica que acompanhou nossa gestação e parto, junto com a Rachelli. Eu não sei o que teria sido de mim, ou melhor, de nós, sem a Camila. Quantas noites em claro, acordando de hora em hora (para amamentar o Bento, mas muito mais para cuidar de mim). Ela auscultou a Pulga pela primeira vez no Natal, quando estávamos com 8,4sem. Eu dizia: “Camila, lógico que não conseguiremos. São só 8,4sem”. E ela, toda feliz e cheia de calma disse: “Conseguiremos sim”. E foi só encostar o transdutor do sonar que lá estava aquele coraçãozinho batendo forte, a 164bpm.

Impressionante! Eu nem havia feito usg ainda… e já auscultávamos nossa Pulga com o sonar.

Eu tinha certeza que a hiperêmese melhoraria e me daria uma trégua após o 1º trimestre. Que nada! Ela foi muito minha companheira (mais do que eu queria!) durante toda a gestação. Até mesmo me impedindo de participar do fatídico chá de bebê. Sim, um chá de bebê surpresa que a grávida não compareceu! Aff

Abro um parêntese para dizer que por conta da hiperêmese tive todo o pré-natal acompanhado maestralmente pela Fernanda Macêdo. Eu tinha certeza que estava em ótimas mãos. A condução foi perfeita e com 35sem eu estava compensada e prontinha para o planejado parto domiciliar.

A escolha pelo PD

Quem me conhece se surpreendeu quando soube que a Maria nasceu em casa. Isso porque eu sempre disse que ela nasceria no hospital, que parto domiciliar não era para mim. Nunca fui contrária a ideia do PD, mas sempre tive a certeza que ele não era para mim (mero engano!). Mesmo trabalhando no centro obstétrico de uma maternidade pública e presenciando/vivenciando de tudo um pouco, não era problema para mim parir num hospital. Aqui abro um parêntese para dizer que não sou contrária ao parto hospitalar, não mesmo! Como disse, trabalho na sala de parto de uma maternidade e amo o que faço.

Mas, voltando as minhas razões… Antes mesmo da gestação da Maria, muitas amigas próximas pariram. Eu acompanhei alguns dos trabalhos de parto e fui visitar outras na maternidade. A cada vez que eu entrava numa maternidade particular, mais certeza eu tinha de que aquilo não era para mim. Rotinas burras, protocolos engessados, profissionais que mais pareciam gravadores de tão robotizados. Eu sempre saia dali com a pior das sensações, com a certeza de que aquilo não era para mim e também muito feliz em saber que, apesar de todas as dificuldades das unidades públicas, o trabalho da enfermagem era completamente diferente daquilo ali.

Assim nasceu a certeza de que quando eu engravidasse, o parto seria domiciliar. Eu e Rapha guardamos essa opção e nunca comentamos para ninguém (ninguém mesmo!). Até mesmo durante a gestação! Só nós dois e a equipe. Mais ninguém. Não me arrependo nem um pouco dessa decisão e faria tudo novamente. A pior coisa que tem são pitacos desnecessários e quando não solicitados. Somado a gestação, hiperêmese, impaciência (que me sobra, eu bem sei!)… ah, não daria certo mesmo ter que me explicar….

Fomos lindamente acompanhados pelas meninas durante todo o pré-natal. Muito amor e zelo a cada consulta. Elas sempre disponíveis a estarem conosco, nos horários loucos do Rapha… o pré-natal foi bem intenso, cheio de cuidados, extremamente bem acompanhado. Sempre assertivas, nada intervencionistas.

Nosso trabalho de parto e a chegada da Maria

Chegadas as 37sem, eu tinha certeza que antes das 40sem a nossa Pulga chegaria. Com 37,2sem consegui fazer o ensaio de gestante. Queríamos muito guardar essa recordação. Eu contraia muito durante o ensaio. Daí, avisei ao Rapha: “40sem que nada… não chegarei nem a 38sem”. Mero engano! Foram 2 semanas de alarmes falsos. Todos os dias eu contraía por mais de 1 hora, de forma ritmada… e elas simplesmente sumiam.

Fiz minha última consulta com a Fernanda na quarta, com 38,5sem. As contrações estavam ali… durante toda a consulta. Ela disse: “esse bebê é para esse final de semana”. Rapha saiu todo animado da consulta e eu falei: “Não se anima não. Esse bebê só fica dando esses alarmes falsos”. Ela estava certa.

Na sexta, com 39sem, recebi uma ligação do meu pai às 12h. Meu pai nunca me liga nesse horário, por conta dos horários loucos dele de trabalho. Até achei que poderia ter acontecido algo… mas ele apenas queria saber como estávamos. Conversamos um pouco. Desliguei e segui o dia normalmente.
O Rapha chegou tarde do trabalho, tomou banho, conversou um pouco comigo e foi deitar. Eu também deitei, mas estava sentindo algo diferente. O que? Sinceramente não sei precisar. Mas tinha a certeza que nossa hora estava próxima. Decidi levantar, fui ao banheiro e senti uma cólica abdominal forte (daquelas típicas que antecedem um episódio de diarreia). Dirigi-me ao quarto, acordei o Rapha e disse que provavelmente entraria em trabalho de parto aquela madrugada. Pedi que ele mandasse uma msg para a Camila avisando que talvez a acionaríamos (talvez, talvez, talvez mesmo).

O Rapha foi cobrir o colchão com o plástico (aff… como deixou para última hora, ele o cobriu de qualquer jeito e lá se foi um colchão para o lixo! Rs). Eu decidi ver se tinha separado as coisas… sou a organização em pessoa. E ali senti a primeira contração. Não foi uma contraçãozinha não. A primeira contração (às 23h da sexta-feira) já me fez ficar acocorada no chão. E eu pensei “huuuum” e “ishiiiii” ao mesmo tempo. Passada a primeira contração, ajoelhei-me as pés de Nossa Senhora, acendi a vela do altar e pedi proteção e luz para a chegada da Pulga.

Eu sempre tive no meu íntimo a certeza de que pariria rapidamente. Enganei-me feio! Foram 24 horas de trabalho de parto. Eu sabia que não adiantava ficar fazendo dinâmica uterina. Afinal, estava apenas começando. E decidi não fazer! Rapha começou a se movimentar, arrumou a sala, encheu a banheira… eu sinceramente não lembro o que fiz até às 6h (sempre achei meio louca essa historia das mulheres dizerem que não lembram de vários momentos do trabalho de parto. Mas posso confirmar que realmente esquecemos!). Eu só me lembro de alguns flashes. Tanto que hoje, na minha mente, eu não entendo como se passaram 24 horas. Rs

Um das coisas que lembro é que por volta das 6h o Rapha perguntou se já estava na hora de avisar as meninas. Ali percebi que ele já não estava dando conta sozinho. Fiz a dinâmica, estava 2/10’. Falei que ele poderia avisar sim, mas que elas viessem devagar porque ainda demoraria. Engraçado mas eu tinha em mim a certeza de que ainda faltava bastante para o parto.

A Camila chegou e o que eu lembro é que ela estava com uma faixa verde na cabeça. Vai entender o motivo pelo qual eu registrei essa informação. Rs Ela chegou de forma bem suave, sorridente. Eu disse que a cada contração eu sentia um incômodo na região ilíaca direita e que eu desejava muito que esse incômodo mudasse de lugar. Aff!!!!!!! Para que eu desejei isso?

Decidi ficar no chuveiro (ele foi meu companheiro durante a gestação toda! Tomava banhos looooooooongos sentada no box). Mas acho que ele encheu-se de mim. Ou eu dele! Sentia-me inquieta e não queria estar ali. Saí! Entrei! Saí! Entrei!

Decidi ir a piscina. A Camila fez-se invisível durante esse momento. Não só nesse como em muitos que se seguiram e isso foi perfeito para mim. Eu odeio interferências. Fiquei pouquíssimo tempo na piscina. Estava mega ultra power incomodada.

Voltei ao chuveiro, coloquei-me de 4 apoios e a bolsa rompeu. Olhei, vi que o líquido era claro e avisei a Camila. Sei que após a ruptura as contrações aumentaram absurdamente. O incômodo que antes era na região ilíaca passou para a região sacra. Putz… e que dor! Não sei descrever o que sentia. Era muita dor!

Um parêntese para dizer que hoje percebo que meus medos, anseios e dores da vida me acompanharam durante essas 24 horas. Santa Ana Cris Duarte, obstetriz, autora desse pensamento: “O parto não dói só de contração. No parto não parimos apenas a criança, mas as dores acumuladas. Parimos tensões, tristezas, repressões, raivas, abandonos, traumas, histórias. Isso explica em parte por que é tão fácil para algumas e tão intenso para outras”.

Foi bem isso. O trabalho de parto/parto não foi só da Maria. Pari uma carga pesada que me acompanhava. E por isso DOEU tanto. Então, reafirmo o que a Ana Cris disse: “tentem parir todas as suas dores antes do trabalho de parto. Do contrário, elas te acompanharão nesse momento”. E doeu… doeu… doeu. Mas, libertei-me! E essa sensação também foi maravilhosa. Hoje sou uma pessoa diferente… hoje sou só a mãe da Maria.

Mas, voltando ao trabalho de parto… lembro-me que em certo momento a Camila me perguntou se eu queria rezar o Angelus (eu amo essa oração e rezei-a diariamente durante a gestação). Sim, eu queria, queria muito. Rezamos o Angelus, nós 3… eu, ela e o Rapha… embaixo do altar de Nossa Senhora – a banheira foi estrategicamente colocada ali). Aquilo me deu muita força para prosseguir.

Eu era a inquietude em pessoa. Desliguei a playlist feita com tanto carinho para o trabalho de parto. Não suportava ouvir qualquer barulho. A vontade era jogar o computador do 8º andar. Ia, vinha… e decidi voltar ao chuveiro para ver se conseguia me concentrar. De repente ouvi uma voz doce e suave dizendo que estava tudo bem e que eu estava ótima. Era a Rachelli. Lembro-me de ter colocado metade do meu corpo para fora do box, ainda de 4 apoios. Ela me cobriu com a toalha, de modo que minha lombar ficou debaixo da água quente e o restante do corpo aquecido pela toalha. Ela me deu um abraço e eu desmoronei. Eu disse que não aguentava mais, que ela (um dia) não poderia querer aquilo para ela e que a culpa de tanta dor era dela e de todas as mulheres que amavam comer maçã… que a maçã era culpada das dores do parto… e a Rachelli riu de mim! Eu queria encontrar um culpado para tanta dor… então que fossem a Eva e a maçã, oras… rs

Eu gritei, gritei muito (fiquei completamente rouca após o parto). Um parêntese para dizer que nenhum vizinho acionou porteiro, bateu na porta ou afins. Sinceramente, acho que ninguém ouviu nada. Eu não sei por quanto tempo gritei… mas não eram gritos de desespero. Sentia necessidade de gritar quando a contração atingia o auge. Era como se o grito fosse um maestro de uma orquestra, da orquestra das minhas contrações. A sensação era a de que eu conseguia controlar o início, auge e término quando gritava. Hoje penso que era pura ‘sensação’ mesmo. Mas que na hora me ajudou… ah… ajudou.
Eu não sei quantas vezes pedi para ser transferida. Eu nunca pedi uma cesariana. Não que eu seja contrária a cirurgia (longe disso!). Mas, eu não a queria e internamente eu sabia que não precisava dela! Mas, que eu gritava para ser transferida, ah… eu gritava. Eu pensava numa analgesia salvadora da pátria! Mas ao mesmo tempo eu ficava pensando nas inúmeras analgesias que eu já havia presenciado e que não tiveram um bom desfecho.

Na verdade, todos os gritos e solicitações eram “da boca para fora”. Em nenhum momento me levantei ou me vesti para sair da minha casa. Eu estava ali e queria estar ali. E as meninas foram cruciais e perfeitas! Ofertaram-me inúmeras possibilidades para aliviar a minha dor… mas nada me ajudava. Nada fazia efeito! Na verdade, hoje sei que eu precisava passar por esse processo, que ele era meu e eu tinha que agarrá-lo, digerí-lo e expulsá-lo de uma vez por todas. E, como ninguém, as meninas respeitaram todos os meus momentos. Fui muito rude e grosseira com elas por diversos momentos. E elas só retornavam olhares de amor, cumplicidade e ternura. Deixei-as exaustas!

exaustas e felizes!

O Rapha foi tudo de melhor que alguém pode querer num acompanhante. Calou-se quando eu não queria ouví-lo e falou quando eu precisava ouvir algo. A cada contração eu tinha a necessidade de me manter de 4 apoios. A contração passava e eu me aninhava no colo dele, enrolada no edredon. Lembro-me que em um dado momento estávamos sozinhos no nosso quarto, na penumbra total… e ele chorou. Eu olhei para ele… nos olhos… e disse: “está tudo bem”. Aquele momento foi perfeito para mim. Ali percebi que precisava retomar as rédeas da situação. É como se vê-lo naquela situação tivesse me dado forças para seguir. Naquele momento senti que a nossa Pulga estava baixa… bem baixa… mas não tão baixa a ponto de nascer. Mas senti vontade de fazer força. E a cada contração eu fazia força, força, força.

Creio que pela mudança de sons emitidos (se eu não me engano já não eram os mesmos gritos), as meninas surgiram. E ali se passaram 4 horas de muitas contrações até a chegada da minha pequena, ali no nosso quarto. Só tive ideia de que 4 horas haviam se passado depois. Eu só queria que a nossa Pulga coroasse. Eu só queria que a nossa Pulga coroasse. Eu só queria que a nossa Pulga coroasse.

Ah… esses meus pedidos… rs. Quando coroou, eu não senti o círculo de fogo. Não mesmo. Eu senti uma dor óssea. Sentia uma dor púbica muito muito muito forte. A sensação era de alargamento ósseo mesmo. Ali tive a noção de que quem estava por vir tinha MUITO MUITO MUITO cabelo. Fiz carinho na cabeça dela e aguardei a próxima contração.

Com o grito da última força a cabeça desprendeu. A cabeça estava limpinha, limpinha, limpinha. Não havia vernix, não havia sangue. Eu disse que eu a receberia. Eu a recebi. No momento que eu a trouxe para mim, vi que era menina. A Maria estava limpinha… assim como a cabeça. Se eu não a tivesse recebido, poderia jurar que alguém a havia limpado antes de me entregar.

Meu mundo se completou. Naquele instante meu mundo se completou. Não falei absolutamente nada, aninhei-a no meu colo e tentei sentir um cheirinho doce que a Camila havia dito ter sentido no nascimento do Bento (Não, eu não senti! Nesse primeiro momento eu não senti! Mas, nos dias que se seguiram esse cheiro se intensificou tanto que por diversas madrugadas eu tinha vontade de comer a Maria, literalmente). Fiquei ali enroladinha com ela… olhando-a. Até esse momento só eu e Rachelli (sim, ela viu quando nasceu!) sabíamos que era uma menina. Em um dado momento alguém disse: “E qual é o sexo?”. Eu fingi que não sabia… desenrolei a Maria e disse: “é a Maria”. Os olhos do Rapha brilharam! Antes mesmo de estarmos grávidos, ele havia sonhado com Nossa Senhora de Fátima e nesse sonho ela revelava a ele que teríamos uma filha… uma menina… nossa Maria.

Pedi ao Rapha para trazer a imagem de Nossa Senhora e a vela… aquela luz acompanhou-nos durante todo o processo. Ele trouxe… ali eu rezei… agradeci… e consagrei a Maria a Nossa Senhora de Fátima… assim como já havia feito quando descobri a gestação. Foi um momento único e que eu levarei para toda a vida. Mesmo! Todas as vezes que passo algum perrengue com a Maria lembro-me que ela é consagrada e isso me acalma.

Curtimo-nos por um tempo… o cordão parou de pulsar… o Rapha cortou o cordão… a placenta dequitou… Hoje entendo as mulheres que já assisti. Elas reclamam bastante dessa parte. E realmente é bem incômodo. Eu sempre digo que sou a louca das placentas. Amo-as! Gosto de olhar ponto a ponto… gosto de mostrá-la… mas não o fiz com a minha. Vai entender. Mas esse momento chegará… ela ainda está aqui… guardadinha. Eu e Maria viveremos esse momento, juntas.

Lembro-me que em um dado momento pensei que ainda viria a parte chata das suturas. Ali a enfermeira obstétrica voltou a adentrar o meu ser e pensei: ‘caracas, ainda terei que passar por essa parte’. Olhei para a Rachelli e falei: “pode dizer que lacerou tudo”. Engraçado que eu não senti sensação de laceração na hora do nascimento não. Nem mesmo ardência. E a Rachelli, sempre com aqueles olhos ternos, disse-me: “Carla, não tem nada, nenhuma laceração”. Ufaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa. Acho que essa frase dela soou nos meus ouvidos como a mais bela das canções para aquele momento.

As meninas fizeram todos os cuidados com a Maria… ali… do meu ladinho. E eu só a ficava contemplando. Quando as meninas a pesaram eu disse: “2665g, né?” (não sei por qual motivo, mas eu sempre achei que meu bebê pesaria isso e falava a todos que me indagavam sobre parto que teria um filho com esse peso). A Rachelli falou: “2670g”. Caramba… que legal! Eu tinha uma percepção boa! Rs
Quando as meninas se despediram e nos deixaram… ali ficamos… eu, Rapha e a nossa pequena. Ele estava exausto. Eu não! A minha sensação era a de que eu ainda aguentaria por hoooooras. Não paramos de contemplar a nossa pequena. Sinceramente, eu não me recordo se consegui dormir.

Se eu mudaria algo? N-A-D-A! Aquele trabalho de parto foi nosso… foi meu… foi o necessário para eu me livrar de fantasmas impostos pela vida. Tive o melhor companheiro que alguém poderia sonhar. Tive a melhor equipe que alguém poderia ter. O parto foi meu… mas o mérito foi nosso. Tenho certeza que tudo só foi possível porque as meninas foram extremamente profissionais, sensatas, assertivas e amorosas. Não titubearam. Elas foram uma dupla perfeita. Depois soube que uma apoiou muito a outra. Isso é uma dupla! Nós, profissionais dessa área, sabemos a importância de uma dupla, da cumplicidade do olhar, quando precisamos tomar decisões, quando precisamos do apoio. Sim, nós profissionais também precisamos de afago.

Posso dizer que pariria mais umas 4, 5 vezes… quem sabe ganhando na loteria, né?! Rs

Aqui termino… agradecendo as meninas por tudo, tudo mesmo. Agradecendo ao Rapha por ser quem é.

Agradecendo a Maria por ter passado lindamente pelo processo. Sem vocês não seria possível, não mesmo!

E pedindo desculpas… desculpas a todas as mulheres que não tiveram seus momentos respeitados por esse sistema obstétrico medíocre. Sim, peço desculpas. Se antes as violências obstétricas me incomodavam, enojavam-me, tiravam-me do meu eixo… hoje elas me massacram!