Vamos falar sobre a placenta?

Vamos falar sobre a placenta?

Único órgão que só existe em um determinado momento da nossa vida – durante a gestação –, a placenta é quase uma entidade. Muitos a adoram, alguns a comem e outros a descartam sem nem olhar direito pra ela. Cheia de significados, posições e funções, a placenta tem importância fundamental durante a gravidez e por isso é importante entender um pouco mais sobre ela.

O que é a placenta, afinal?

A placenta é um órgão cujas primeiras estruturas começam a se formar desde os primeiros dias da gravidez e completa seu desenvolvimento por volta da semana 18-20. Ela é composta por tecidos do útero e do feto e sua função principal é comunicar o corpo da mãe com o corpo do bebê. É ela quem transfere nutrientes e oxigênio da mãe para o filho; ela é responsável pela proteção imunológica do feto; é através dela que o feto excreta substâncias nocivas, como gás carbônico; ela ainda se encarrega da produção de hormônios fundamentais para a gravidez. Fora isso, ela protege o bebê de substâncias nocivas e tóxicas que possam prejudicar o feto – vale lembrar, entretanto, que álcool, cigarro e alguns tipos de vírus e bactérias ultrapassam a barreira placentária e podem afetar a criança.

Uma das faces da placenta fica totalmente conectada ao útero materno e a outra fica voltada para o bebê, com quem se liga através do cordão umbilical. A placenta é, portanto, fundamental para a sobrevivência e o desenvolvimento do feto.

A placenta pode se fixar em diferentes lugares dentro do útero

A placenta amadurece junto com o bebê, acompanhando o crescimento uterino. Ela geralmente se implanta e cresce na região mais alta do útero – que também é o lugar mais seguro para isso. Ela pode ficar na posição anterior ou posterior, o que significa que ela está fixada na parte da frente, perto da barriga da mãe ou na parte de trás, perto das costas. Ambas posições são normais e a única diferença entre elas é que, caso a placenta esteja em posição anterior – na parte da frente – talvez a mãe demore um pouco mais para sentir os movimentos do feto, já que tem a placenta na frente absorvendo o impacto da movimentação do bebê.

A placenta pode se implantar inicialmente na parte baixa bem próximo ao colo uterino. Mas a grande maioria “migra” para parte superior e isso só pode ser totalmente definido no terceiro trimestre, onde há o crescimento do útero afastando a placenta do colo uterino. Qualquer definição de posicionamento da placenta só pode ser feita, portanto, a partir da semana 28, aproximadamente. Então se você estiver no início da gestação e a inserção da placenta estiver baixa, calma! Ela tem muita chance de migrar e, na verdade, essa possibilidade é a mais provável.

Problemas com a placenta são comuns, mas inspiram condutas específicas

No primeiro trimestre da gravidez, é difícil falar em problemas placentários. É muito comum mulheres com sangramento receberem diagnóstico de “descolamento de placenta”, mas até o terceiro mês de gestação, isso é impossível. O que acontece, nesse caso, é o descolamento do saco gestacional (hematomas subcoriônicos), que também provocam perdas de sangue, cólicas e podem evoluir para aborto espontâneo.

placenta crochêEssa situação, entretanto, não tem nada a ver com a placenta: o descolamento do saco gestacional nada mais é do que um acúmulo de sangue entre o saco e a parede onde ele estaria fixado. Cada profissional deve definir em conjunto com a grávida como tratar esse problema, mas, o que se vê é que essa situação se resolve sozinha, independentemente de medidas como medicação e repouso.

Também são comuns diagnósticos de placenta prévia com indicação equivocada de cesariana no primeiro trimestre da gestação. Como já vimos antes, qualquer diagnóstico ou conduta com relação à localização da placenta tão precocemente não procede, já que ela não assume seu lugar definitivo antes do terceiro trimestre. Estima-se, inclusive, que até 17 semanas, até 90% das placentas estejam “prévias” (baixas). Fechar esse diagnóstico e indicar uma cirurgia tão cedo não é uma conduta baseada em evidências científicas, portanto.

A placenta “envelhece” e é assim mesmo!

Com o decorrer da gravidez, a placenta amadurece e, com isso, apresenta depósitos de sais de cálcio que podem ser detectados pela ultrassonografia. Esse amadurecimento é classificado de grau 0 a III. É importante ressaltar que o simples achado de “placenta grau III” isoladamente – principalmente no terceiro trimestre – não é um indicativo de que a placenta não está cumprindo seu papel de nutrição e oxigenação do feto corretamente. Logo, o grau da placenta isoladamente NÃO é uma indicação de cesárea nem de indução de parto. É muito comum – e até esperado –, no ultrassom de final de gravidez, verificar placentas de grau III e a gestação seguir normalmente, sem prejuízos para o bebê e sem necessidade de se decidir por uma cirurgia cesariana.

Depois do parto, o que acontece com a placenta?

A placenta normalmente se descola sozinha após o nascimento do bebê via parto normal. O útero continua contraindo, diminui expressivamente de tamanho e expulsa a placenta. Enquanto isso não acontece, é importante que o profissional que está atendendo o parto respeite a fisiologia e não tracione (puxe) a placenta. Empurrar, forçar, tentar arrancar são atitudes que podem causar mais danos do que benefícios neste momento. O ideal é que o bebê mame logo após o nascimento, o que estimula mais as contrações uterinas. De qualquer forma, a equipe que está assistindo o parto está atenta para o “nascimento” (dequitação) da placenta e saberá agir caso algo saia do esperado. O parto só termina depois que a placenta sai, antes disso o acompanhamento da parturiente deve ser contínuo.

placenta no parto

Se o nascimento for via cesariana, o médico fará uma raspagem do útero de forma a garantir que não fique nenhum resíduo placentário dentro do corpo da mulher.

Quando a placenta finalmente é expulsa, o profissional irá analisar o órgão e, se tudo estiver bem, a placenta poderá ter alguns destinos:

– Lixo hospitalar: após análise, a placenta é descartada junto com o lixo hospitalar. Se for da vontade da gestante, é possível solicitar ao profissional que está dando assistência ao ser parto para ver a placenta e talvez levá-la para casa. No Rio de Janeiro, isso não é permitido em hospitais públicos, sob alegação de problemas no descarte, a Vigilância Sanitária não permite. Em hospitais particulares, é necessário checar viabilidade. Na maioria dos hospitais, seja particulares ou públicos, ela fica congelada um tempo e serve para estudo, caso o binômio mãe e bebe apresente algum problema, como má formação do bebê, prematuridade, placenta de constituição fora do padrão, entre outros.

– Conectada ao bebê: no Parto de Lótus, a ideia é fazer uma transição suave para a chegada do bebê, então a placenta fica ligada nele até o cordão umbilical secar e cair. Essa prática exige cuidados de higiene específicos.

– Plantada: algumas famílias optam por usar a placenta como adubo para plantas. O plantio da árvore ou planta, nesse caso, tem um papel simbólico de seguir nutrindo a vida. Isso porque a placenta, como material orgânico, vai adubar e ajudar a planta a crescer. Algumas famílias congelam a placenta e esperam a criança crescer um pouco para fazer o plantio junto com elas.

– Ingerida: existem várias maneiras de “comer” a placenta. Em forma de cápsulas, shakes, molhos, existem receitas e profissionais para todos os gostos. Muitos defendem que ingerir a placenta tem função energética e restaurcarimbo de placentaadora, por conta do ferro e diversos nutrientes presentes nela. Porém, não há confirmações científicas dos benefícios relacionados.

– Carimbada em representações artísticas: é possível carimbar a placenta num papel A3 ou tecido com o próprio sangue dela ou pintá-la com tinta e carimbar. Muitas famílias optam por esse tipo de arte para guardar como recordação.

Até que se decida o que fazer com a placenta, é importante mantê-la congelada no freezer, dentro de qualquer tipo de saco plástico.