Relato de parto domiciliar: o nascimento do Dante

Relato de parto domiciliar: o nascimento do Dante

Dante não foi planejado, mas estávamos cientes que eu poderia engravidar. Somos um casal recente, onde ambos sempre quiseram ter filho e constituir família, uma rede de afeto e, então assumimos a responsabilidade da possível gravidez sem precisar falar muito sobre o assunto. Assim foi, em janeiro parei de tomar o anticoncepcional e em fevereiro percebi que já estava grávida uma semana antes da minha menstruação atrasar. Ela atrasou e na semana seguinte já fiz os testes de farmácia (fiz 3 testes😅) comprovando a gravidez.

Eu tinha acabado de trocar de ginecologista, pq queria parar de usar anticoncepcionais, ela pediu exames e ao invés de voltar com os resultados, voltei anunciando a gravidez e feliz por ela ser uma obstetra que tinha o parto humanizado como filosofia e ainda era do meu plano de saúde. Estava tudo perfeito e por isso desde o princípio meu parto seria humanizado hospitalar.

Continuei o pré-natal com essa médica até que com 6 meses de gestação ela simplesmente me avisa que iria descredenciar do plano. Fiquei calma porque achei que juntas encontraríamos a melhor solução para que meu bebê nascesse, mas não foi o que aconteceu. Ela somente se prontificou a me acompanhar até o fim daquele mês e falou que conhecia por alto um médico do plano que fazia parto normais, mas não humanizados. Fiquei muito frustrada, agradeci e não voltei mais a encontrá-la. Me senti abandonada no meio do processo, primeira gestação, onde eu achava que saberia como seria meu parto. Mas eu não me desesperei. Fui procurar as possibilidades no meu plano e comecei a pesquisar sobre o parto domiciliar ao mesmo tempo. As opções no meu plano não estavam nada boas, então fui conhecer a Maternidade Maria Amélia com meu companheiro Donato.

Gostamos do que vimos mas o meu hospital de referencia pelo SUS era o Carmela Dutra, fui até lá com a minha mãe Analimar, não gostei do que vi, uma estrutura inferior ao MMA, onde o pai poderia acompanhar o parto mas não poderia ser meu acompanhante, dentre outras coisas que não me deixaram a vontade. Então o medo de ser transferida pro Carmela caso fosse pro Maria Amélia me fez ter ainda mais vontade de tentar o domiciliar. Mas o que me prendia e não me deixava fazer essa tentativa? Meu companheiro e minha mãe. Eu precisava de total segurança emocional para enfrentar o parto domiciliar e por consequência o total apoio deles. Eu já trabalhava a possibilidade com eles, que não estavam tão confortáveis, mas após as visitas ás maternidades e uma conversa da nossa doula Nádia Carvalho conosco, eu consegui ir tranquilizando o ambiente ao mesmo tempo em que eles sanavam suas dúvidas e medos em relação à segurança.

Com 37 semanas (sim, muito em cima) achei que estávamos preparados pra enfrentar a dor e delícia de um parto domiciliar. Entrei em contato com a Mariana Zukoff, da equipe Parto por Amor, que eu conheci numa roda de gestantes que fui já com o propósito de me interagir pessoalmente com as enfermeiras Obstétricas e conhecer mais ainda sobre o tema. A Mari, foi super solícita e simpática comigo, na roda e depois, quando entrei em contato para uma emergência de viagem na gestação 🙃 e para tirar minhas dúvidas, assim como ela, escolhi a Nádia por empatia e resiliência, algo extremamente necessário para as gestantes, é tudo muito novo, então precisamos de pessoas que nos ajudem e escutem sem que se intrometam em suas decisões. Voltando à roda, lá também conheci a Marcia Araújo, que não poderia estar presente no meu parto mas eu seria muito bem assistida pela Ana Grova, que também faz parte da equipe Parto por Amor.

Fiz três consultas de pré-natal com as meninas, fomos nos conhecendo e ainda tirando dúvidas para tranquilizar a todos que me cercam. Decidi que não contaria para todo mundo sobre o parto domiciliar por que ele poderia não acabar da forma esperada e criar expectativa é algo que não gosto. Apenas com a família e amigos mais próximos sabendo dessa decisão ficamos a vontade para esperar a hora que o Dante iria resolver nascer.

Aí começa o relato do parto propriamente dito …rs

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Na última visita de pré-natal, quarta-feira dia 07, elas identificaram o que eu já suspeitava, estava tendo as contrações de treinamento, eram leves e eu continuava com a vida normalmente, já na quinta à noite passei a madrugada me queixando de dores na lombar para o Donato, cogitamos entrar em contato com a equipe mas após algumas horas passou, e eu consegui dormir. Sexta fiz minhas coisas normalmente e num jantar/encontro da família aqui em casa eu já não conseguia ficar quieta por conta das dores na lombar e por isso me alongava pra lá e pra cá, não conseguindo ficar sentada. De madrugada as dores aumentaram, eu e Donato ensaiamos cronometrar mas estavam muito irregulares então achei melhor deixar rolar pra não criar a tal da ansiedade.

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Passei a madrugada com as dores aumentando e Donato cuidando de mim, que no sábado foi para o trabalho completamente virado me deixando as instruções de entrar em contato com a equipe. De manhã cedo por volta das 8h eu começava a entrar em contato com as meninas, dizendo como foi a noite e que as dores continuavam durante o dia, elas foram me fazendo perguntas e eu, que ainda estava trabalhando ao telefone, fui começando a interromper minhas falas para gemer de dor, com isso todos já sabiam que a hora estava chegando. Minha tia e meu pai me perguntavam de 5 em 5 min se a equipe estava vindo, a doula Nadia veio para me avaliar e já resolveu ficar comigo, passando óleos e massagens para aliviar a dor. Donato, chegou logo depois, disse que não aguentou e chegou com sorriso largo anunciando que o filho iria nascer.

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As 11h da manhã eu já estava sendo acompanhada e por volta das 14h chegou a Mariana, para auscultar o bebê e certificar que estava tudo bem. Pronto, o processo começou logo no dia que minha mãe Analimar tinha viajado a trabalho para SP e só voltaria no dia seguinte. Liguei pra ela, avisei que estava em trabalho de parto, ela do seu jeito calmo/morrendo de nervoso mas querendo me tranquilizar ia ficando a par de tudo o que acontecia através da minha família. Sim, minha família estava por perto, dentro da minha casa meu irmão mais velho, Raoni Ventapane (meu parceiro de tantos trabalhos e amadurecimento) estava filmando enquanto minha cunhada, Fernanda Assis, sua esposa, fotografava. Aqui em casa éramos 3 mulheres da equipe, 2 de foto e vídeo, Donato, eu e Dante. A casa pequena estava cheia de pessoas e de afeto. Lá embaixo na casa da frente de onde moro, estavam 3 tias minhas, meu pai, a mãe do Donato e mais algumas pessoas que por lá passaram rapidamente. Eles pareciam fazer um vigília para o nascimento do Dante, e o que achei de mais bonito foi que ali eles ficaram até o nascimento.

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Eram 16h quando a Marcia chegou. Como assim?! A Ana tinha uma viagem marcada e estava fora do RJ, a enfermeira que cobriria caso ela não estivesse estava com problemas com a mãe e assim a Marcia “teve” que vir, para minha felicidade. Aquelas coisas que estão marcadas nas estrelas, nas estrelas não, no portal por que Dante nasceu no dia do portal 11:11. Por volta das 22h depois de sentir dores, chorar, sentar na bola de pilates e fazer os exercícios, entrar no chuveiro, usar a técnica de rebozo e entrar na piscina que estava montada na minha sala elas decidem fazer um exame de toque para termos a real noção de como estávamos pois eu sentia muita dor mas não sentia o bebê descer. A resposta foi 5 de dilatação. Após 10 horas, meu trabalho de parto ativo tinha acabado de começar. Tentei não me desesperar, pois ainda faltava muito, estava apenas no meio do processo todo e já estava cansada. O que fazer? Vai caminhar até o portão, conversar com sua família lá embaixo, andar um pouco e trocar de ambiente. Tento ficar calma e ir seguir as orientações enquanto as enfermeiras vão à casa mais próxima tomar um banho. Vou pro portão de casa, tentando não gritar durante as contrações e acabo vomitando um pouco ali mesmo.

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Falo com a minha mãe no celular para tranquiliza-la, ando na rua, converso com a família, vou pra minha sala de dança, exponho meus medos num momento único entre eu e meu marido, que não largava a minha mão, nenhum segundo em que o solicitei. Após uma conversa com ele, que me acalmou e não me fez sair correndo para o hospital mais próximo. Chega a madrugada minhas dores estão fortes e começo a falar coisas sem conexão, falo de carnaval, da minha tia que fez um parto humanizado, falo sobre a força da mulher. Todos não aguentam mais e por volta das 3h/4h da manhã estão estirados no chão da minha casa, se revezando e sempre alguém se mantendo acordado ao meu lado, que não conseguia ficar nem em pé e nem sentada. Braços apoiados na cama, pernas estendidas no chão e essa era minha única posição. Me irrito, não aguento mais, acordo a equipe vou pro chuveiro para aliviar a dor, tento sentar na banqueta e não consigo, muito sofrimento.

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Reúno elas a minha volta e comunico que não quero mais, estava naquele momento desistindo, que não dava mais pra mim. Elas me lembram que esse momento chega e é quando o negócio começa a pegar fogo, que significa que a hora do nascimento tá chegando. Eu falo que pra mim não dá, brigo com elas, tento não perder a consciência mas que de forma alguma eu queria continuar a sentir dor, elas tentam me acalmar, me explicam tudo que elas explicam quando você faz o pré-natal e que elas vão te preparando para cada estágio de dor. Eu não quero escutar, fico pedindo para irmos embora que não aguentaria esperar amanhecer. Elas saem do banheiro e me deixam falando sozinha, eu tenho a impressão de ter ficado uns 30min entre o falar sozinha e entrar em silêncio absoluto quando olho pelo basculante e vejo o dia amanhecendo.

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Vamos para o segundo exame de toque, umas 6h da manhã, 7 de dilatação. Ah, que ótimo estamos evoluindo! Elas tentam me animar, eu em silêncio continuo e vou pra piscina, ali eu consigo tirar uns cochilos, sonhar que não estava ali, entre uma contração e outra que estavam mais leves. Meu irmão aparece e eu começo a reparar que as pessoas estão acordando já estou sem noção das horas, minha cunhada aparece e todos somem, começo a contar pra ela que quis desistir de madrugada e que acho que ainda quero. Ela me olha nos olhos com uma força de quem já pariu e de quem sabe o quanto eu queria aquele momento, me passa toda a força que eu achava que não tinha mais através do olhar. Ali eu descido novamente que meu filho nasceria num parto domiciliar.

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Opa! Minha bolsa rompeu! Esqueci de contar que o tampão saiu durante a madrugada, aquele banho que eu quis desistir e que a bolsa parecia ser o o empecilho para que Dante viesse ao mundo, pois como ela não rompia, Dante não estava descendo o suficiente para nascer, ela poderia estar impedindo. E era exatamente isso. Após romper as dores intensificaram e a Marcia falou com firmeza, é hora de ficar de pé e fazer o Dante nascer, vamos aproveitar a gravidade e fazer uns agachamentos durante as contrações. Ela me prometeu que seriam dois, fizemos e mais um pouco do tampão mucoso saiu, senti que estava funcionando e então resolvemos continuar, depois de mais dois e eu já urrando de dor ela fala para fazermos mais dois. Minhas pernas tremiam como eu nunca tinha visto, não tinha força nem para levantar entre um agachamento e outro, com o apoio do meu companheiro eu conseguia continuar e começava a falar comigo mesma me motivando a não parar, não desistir e seguir fazendo o que fosse pro Dante nascer. Perco totalmente as forças, peço pra entrar na piscina para aliviar a dor na água morna, entro e logo atrás de mim entra o Donato, que me abraça, quando vem a próxima contração, não tenho dúvidas, vamos agachar aqui mesmo e gritar: Vem Dante, vem Dante!

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Me apoiando no Donato faço toda a força durante as contrações e sinto uma queimação chegando, falo pra todos, Mari vê que ele está coroando e Marcia anuncia que o círculo de fogo estava chegando, é a hora do expulsivo, faz força, não tenha medo, porque ele irá nascer e falta muito pouco. Donato e eu começamos a me motivar com frases do tipo: Você consegue!; Força!; Não desiste…

 

Eu penso em desistir, logo vejo que não vai ser mais possível, então eu descido que vai nascer naquele momento e que aquela dor TODA vai acabar. Vem o expulsivo, sai a cabeça, eu penso em um milhão de coisas em 2 segundos, até me preocupo dele estar com a cabeça para fora mas dentro d’água. A equipe me tranquiliza, me trás pra realidade eu faço nova força mas sei que essa contração não veio tão forte para expelir de vez, elas me tranquilizam novamente e falam pra eu me concentrar pra próxima. Eu me concentro, entro em conexão com tudo aquilo e a última contração vem, ele sai e eu não acredito ao olhar nos olhos dele e vê-lo em meus braços sabendo que nós conseguimos.

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Que misto de emoções.

Agora sim somos uma família, a Família DDD!

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