Relato de parto: o nascimento da Sofia

Relato de parto: o nascimento da Sofia

Hoje a Aline conta em detalhes como foi o nascimento da Sofia! Um parto hospitalar assistido pela enfermeira obstetra Ana Grova.

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Antes de começar descrevendo o meu parto preciso falar sobre o que me motivou a ter um parto normal. Eu era daquelas pessoas que achava que era só fazer uma cesariana e pronto, afinal de contas, pra que “sofrer”, né? Por que sentir dor? Quanto retrocesso, a medicina já está tão avançada! Eu também sou extremamente controladora e planejada, então saber a data de nascimento do meu filho, ir arrumada para a maternidade, sem correria é maravilhoso, a troco de que vou abrir mão disso? Se até o signo do meu filho eu posso escolher, posso escolher o dia e o horário, logo eu que adoro numerologia, rs…

Foi aí que entra minha amiga Ana Grova nesse relato, estudamos juntas desde muito pequenas, fomos grandes amigas na adolescência e ela sempre foi muito estudiosa, passava as férias escolares com livros de anatomia para cima e para baixo, são mais de 20 anos de amizade e muita história para contar, na faculdade ela foi fazer enfermagem e se realizou na obstetrícia e eu fui para a área de comunicação social, especificamente publicidade, nessa fase por conta dos caminhos diferentes nos afastamos um pouco, mas em uma das poucas oportunidades que nos encontrávamos ela me falava sempre com muito amor da sua profissão e foi aí então que conheci a humanização no parto, aprendi tanta coisa e me assustei muito quando me dei conta do quanto nós mulheres estamos sendo vítimas de um sistema desonesto, onde argumentos furados tais como “circular de cordão”, “você não entra em trabalho de parto”, “bebê grande demais”, “mulher pequena demais”…Eram motivos para agendar aquela cesariana desnecessária, por conveniência do médico, mesmo que isso custasse um parto prematuro para o seu filho, pouco importa! O mais importante era que o seu parto não caísse no meio do feriado ou em algum horário inconveniente para o seu médico.

Por orientação da Ana, comecei assistindo o documentário “O Renascimento do Parto” que é maravilhoso para início de conversa e a partir disso mergulhei profundamente nesse universo, comecei a entender bem o propósito da humanização e entendi que o respeito a vida de fato se inicia no parto, li sobre violência obstétrica e percebi que várias pessoas que eu conhecia ao me descrever seus próprios partos haviam sido vítimas de violência obstétrica e elas nem sabiam disso, vi o machismo escancarado quando soube que alguns médicos insistiam em fazer o ponto do marido, ou seja, não existia só problemas com as cesarianas, existiam também os partos normais repletos de desrespeito, foi então que eu entendi que a solução não estava em ter ou não um parto normal e sim ter ou não um parto humanizado e isso sim faz toda a diferença.

Esse trabalho todo de casa eu fiz antes mesmo de engravidar, sou uma pessoa curiosa, gosto de ler e estudar sobre temas variados, então quando engravidei eu sabia exatamente o que eu queria para mim: Um parto humanizado, isso virou um objetivo de vida. Depois que engravidei eu tinha que fazer com que o meu marido embarcasse comigo em tudo isso, pois ter um parto humanizado no nosso país não é simples e nem barato, você precisa querer muito porque é de fato nadar contra a correnteza. No início ele foi resistente, ele ainda não entendia nada sobre o universo da humanização, então tive que trilhar com ele o mesmo caminho que eu trilhei com a ajuda da Ana, assim conversamos bastante, ele assistiu o documentário, fomos a roda de conversa da equipe maravilhosa Parto por Amor que a Ana faz parte e assim ele entendeu e concordou que um parto humanizado era o melhor caminho para o nascimento da nossa filha.

Agora a busca era do profissional, temos um bom plano de saúde e eu já sabia que conseguir um parto normal humanizado pelo plano seria uma tarefa quase impossível e de fato foi, passei por 3 obstetras que “fingiam” que fariam o meu parto normal, mas era só eu apertar um pouco ou até mesmo pedir as taxas de cesarianas daquele profissiona para o plano (agora é lei o plano fornecer esses dados) que eu me assustava profundamente com as taxas que giravam sempre em torno de 96% de cesarianas, além disso não era uma equipe humanizada, então eu percebi que é impossível ter um parto humanizado sem uma equipe humanizada, depois de me informar percebi que não adianta ter bola, banheira, iluminação baixa, música, um espaço incrível…Nada disso faz tanta diferença quanto a escolha dos profissionais que vão te acompanhar, percebi que é mais fácil ter um parto humanizado no Sus, muitas vezes em um lugar feio e com bem menos estrutura mas ter um parto com amor e respeito, isso sim faz toda diferença, o problema é que nem sempre pelo Sus você tem a garantia que vai ser assim, depende da equipe de plantão e da filosofia daquela instituição, enfim…Não estava sendo fácil ser respeitada e poder escolher o parto que eu gostaria através do meu plano, as alternativas estavam bem reduzidas: Ou eu iria para o Sus ou teria que deixar de lado o meu ótimo plano de saúde e desembolsar uma grana em um boa equipe no particular, ainda mais sendo uma gestação de baixo ou nulo risco, por que tanta dificuldade?!?

Foi então que a Ana me indicou uma médica do meu plano que toparia fazer meu parto normal com a humanização que eu precisava, porém eu teria que pagar um valor por fora que eu considerei justo, apesar de indevido, para ter o meu tão sonhado parto normal humanizado e teria de presente a companhia da minha amiga Ana durante todo trabalho de parto (essa foi a melhor parte), por isso eu digo e repito, se você não puder ter o privilégio de ter uma amiga enfermeira obstetra super antenada na humanização, contrate uma equipe humanizada, já deixo aqui minha indicação do grupo Parto por Amor, elas são fantásticas, todas elas, um trabalho que vai no seu íntimo, com música, espiritualidade, amor, muito amor, empatia, carinho, cuidado, segurança e muito profissionalismo, tem um preparo no antes, durante e depois, só vivendo para saber, eu tive um pedaço do grupo comigo (minha amiga Ana) e fiquei maravilhada, de verdade e sem exageros!

Vamos ao parto, eu trabalhei e estudei (hoje faço veterinária) a gestação toda, não parei e me mantive sempre ativa e em movimento, o que me ajudou muito para ter uma gravidez tranquila, quando completei as 38 semanas comecei a ficar muito ansiosa e também as pessoas começaram a fazer algumas cobranças: “Vai nascer quando? ”, “Cuidado para não passar da hora!”…Sabemos que podemos esperar até as 42 semanas e a maioria dos bebês nascem de 40 semanas, mas não tem jeito, a gente sempre cai nessa pilha e sendo mãe de primeira viagem o medo vem com tudo, foi então que comecei a pensar em formas “caseiras” de induzir meu parto, por isso dancei, andei ainda mais e estimulei meu seio até o colostro sair, essa última técnica foi batata, no outro dia durante o trabalho, visitando clientes e andando no meio do shopping, senti um líquido bem discreto escorrendo no meio das minhas pernas e no banheiro percebi que aparentemente minha bolsa havia rompido, fui dirigindo até o hospital (sou dessas, rs) e lá confirmei a bolsa rota, porém no meu caso ela não estourou de uma vez (igual essas cenas de filme), parece que ela apenas rompeu e o líquido foi descendo aos poucos, fiquei extremamente feliz e animada com a notícia, eles ligaram para a minha obstetra que mandou o hospital me liberar para casa, pois nos nossos planos eu entraria em trabalho de parto em casa com meu marido e a enfermeira (Ana) e assim já chegaríamos bastante adiantada na maternidade para não precisar ficar tantas horas lá, esse era o plano perfeito, mas como tudo na maternidade é imprevisível as coisas saíram um pouco do planejado, rs…Fui para casa feliz e animada pois eu sabia que dentro de algumas horas (muitas) eu estaria com a minha filha nos braços, meu marido saiu do trabalho para ficar comigo e eu estava apenas com aquelas contrações de treinamento ou pródromos, como costumam dizer, seguimos as orientação da Ana e andamos bastante pelo nosso condomínio, dancei (ele era o dj , rs..) e não tive nenhuma evolução, quando foi por volta das 21 h a Ana chegou na minha casa com uma mala enorme, cheia das suas “bruxarias” maravilhosas e material de trabalho, rs…

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Ela preparou um chá para ajudar a induzir, fizemos exercícios, escalda pés, mas também rimos e conversamos muito até altas hora, foi tão especial…Relembramos momentos da nossa infância e adolescência, foi lindo! Em um determinado momento, já estava muito tarde, ela mandou eu deitar e dormir, durante toda madrugada ela monitorava os batimentos do bebê e entrava em contato com a minha médica, não poderíamos esperar muitas horas para ir a maternidade pois a médica queria seguir o protocolo de 24 horas de bolsa rota para não colocar o bebê em risco, tem literatura que demostra que poderíamos esperar mais, porém a gente deveria seguir as orientações da médica que a princípio seriam 18 horas e a Ana conseguiu convence-la para aguardarmos pelos menos 24 horas para a indução, tem profissional que aguarda 48 horas, mas isso tudo depende muito da conduta de cada profissional.

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No outro dia por volta das 8 horas da manhã fomos a maternidade e eu continuava apenas com aquelas contrações desritimadas e muito suportáveis, encontramos a minha médica que já estava nos aguardando na porta da maternidade e lá demos entrada na internação, ela tentou a primeira indução com misoprostol, pois não tínhamos muita margem de tempo para aguardar o meu trabalho de parto de forma espontânea ,depois de aguardar algumas horas (cerca de 6 h) eu continuava na mesma e a médica sugeriu a indução com a ocitocina, nesse momento eu ainda estava super de boa, rindo, fazendo exercícios na bola, dancei hip hop, funk e a Ana ali comigo, até dançar, ela dançou e nada de contrações ritmadas, nessa hora eu já estava pedindo a Deus para sentir dor, eu queria dar início ao meu tão sonhado trabalho de parto e via que a coisa não evoluía, eu estava muito dispersa, levando tudo com muita alegria e tranquilidade, foi então que a Ana falou para mim: “Amiga, vai para o chuveiro, fica lá e se concentra, desse jeito que você está não vai rolar!”, era de fato o que eu precisava ouvir, quando entrei no chuveiro com as luzes apagadas ao som daquelas músicas lindas as contrações começaram a ficar ritmadas, nessa hora você percebe o quanto você precisa alinhar a mente ao corpo no trabalho de parto, você precisar entrar no seu universo particular, ali eu descobri como realmente é dolorido e que as contrações reais não se parecem nada com as de treinamento, por isso sempre ouvia dizer: “Na hora que começar você vai saber!” e de fato você sabe, essa é a mais pura verdade, já mandei me levarem para a sala de parto porque eu sabia que já estava evoluindo, isso já era em torno das 18 h, vale lembrar que cheguei às 8 h da manhã na maternidade.

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Ao chegar na sala humanizada começaram a encher a banheira mas eu preferi ir para o chuveiro, meu marido entrou no banheiro comigo e me dava um apoio absurdo, toda vez que as contrações vinham com toda força eu apertava seus braços e agachava de tanta dor e ele me incentivando com frases otimistas e de muito amor, ele não saia de perto de mim nem por um segundo, a música, o ambiente escuro, tudo isso me ajudava demais, a água quente batendo nas minhas costas me davam uma sensação de alívio bem pequena, mas que já me ajudava bastante, ali eu entrei no expulsivo, em alguns momentos confesso que eu pensava ”Meu Deus, onde eu fui me meter!?!”, “será que vai aumentar mais?”, “acho que não vou aguentar”, mas no mesmo momento pensava no quanto havia lutado para chegar até ali e ouvia a voz da minha amiga dizendo “Não vai passar disso, a dor é só essa, aguenta firme, não vai demorar muito!”, em respeito a tudo que eu batalhei para chegar naquele momento, em respeito as pessoas que estavam se esforçando para realizar o meu sonho em nenhum momento eu falei as duas palavras temidas: “Anestesia” (analgesia) e “Me leva para cesária”, mesmo sabendo que ninguém ali iria atender os meus pedidos, especialmente o segundo porque sabiam exatamente como eu queria que fosse, eu não falei e em cada contração forte, eu só pensava “Não é mais uma contração, é menos uma contração”, meu corpo entrava em um ritmo perfeito, era quase uma dança, sentir a força que existe dentro de mim era algo surreal, ali eu comecei a entrar na partolândia, esse lugar existe mesmo, lia isso nos relatos de parto e achava graça, mas eu estive lá, nessa hora você escuta só algumas coisas que as pessoas que estão ao seu redor falam, nem tudo você consegue enxergar , a dor ultrapassa todos os limites mas apesar de muito forte você começa a não lutar contra ela e sim a favor dela, você vira amiga da dor e pensa em quem você ama, pessoas que estão aqui e que já partiram para outro plano, você começa a pensar nas mulheres que você conhece e as que você não conheceu que pariram de forma natural, minha bisavó por exemplo com seus 13 filhos, você pensa em coisas que estavam adormecidas lá no seu íntimo, no meu caso eu não sentia medo, pelo contrário, eu me sentia incrível, nesse momento eu deveria estar liberando uma quantidade absurda de hormônios que já me fazia amar aquele momento e a partir dali a dor fazia todo sentindo, ela era a dor do amor e eu precisava passar por ela para conhecer a minha filha, fazia parte de todo processo…

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A Ana me tirou do chuveiro e me colocou na banqueta com o rebozo preso no teto para que eu pudesse segurar, foi ótimo e ali evolui mais um pouco, nesse momento eu vi que a pediatra entrou na sala e começou a se preparar, senti uma força absurda pois percebi que eu estava perto de segurar minha filha nos braços, nessa hora eu já tinha entrado em contato com meus extintos mais primitivos e já tinha virado “bicho” rs…Nessa hora você abandona qualquer vaidade, você já não liga mais para nada, você só sabe que precisa parir de qualquer maneira. Foi quando ela falou para eu ficar deitada de lado segurando o rebozo que eu já estava na reta final, lembro que nesse momento alguém disse “Ela já está aqui, olha os cabelos”, nessa hora o Rafael começou a chorar de soluçar e eu olhei para ele e me motivei ainda mais em continuar mesmo exausta, faltava muito pouco. Nessas horas eu pensava como era bom ter um marido tão amigo, tão porto seguro, ele me dizia “pode apertar meu braço”, “vamos lá Aline”, “Falta pouco”, “eu te amo”…

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É claro que ele estava com medo, assustado, afinal de contas ele nunca tinha vivido aquilo, mas ele segurou a onda e o meu sonho passou a ser o sonho dele, ele pariu comigo, não largava a minha barriga, não saia de perto de mim, as vezes olhava para a Ana para saber se estava tudo bem e quando percebia que tudo estava dentro da normalidade ele me incentivava cada vez mais (isso fiquei sabendo depois)…Foi então que comecei a sentir o círculo de fogo e a Ana dizia “Vence isso amiga, força!, ta quase!” e de repente , as 20:40 ela veio ao mundo, eu senti que ela saiu de uma vez e no mesmo momento a dor se foi instantaneamente, através das mãos da Ana (que sonho!!!) ela veio ao mundo e logo me entregou a minha Sofia, eu fiquei eufórica, não parava de gritar, beijar…

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Peguei minha filha e ela estava chorando muito e logo que ouviu minha voz parou de chorar e chupou dedo, eu logo disse “Obrigada meu Deus”, “Nós conseguimos minha filha”, “Eu te amo”, “Você é perfeita”, beijei o Rafael e ele chorava muito e dizia “Ela é linda”, agradeci muito a ele , agradeci muito a Deus e ao olhar para o lado percebi que a Ana chorava muito, sujei ela de vernix em um abraço bem apertado e disse “Você é foda amiga, eu te amo, obrigada, obrigada por tudo…”, lembro que eu não parava de cheirar a minha filha, os hormônios já estavam a flor da pele e o amor por ela transbordava, ficar com ela ali no peito agarradinha comigo foi a melhor sensação da minha vida, naquele momento eu já não era mais a mesma, eu já era outra Aline, aquela que deu entrada no hospital havia de fato morrido e dado espaço para uma outra Aline, bem mais segura, decidida e super poderosa, depois de passar por essa experiência eu me senti a mulher mais maravilhosa do mundo, você tem a sensação que é capaz de qualquer coisa.

Cara, que experiência maluca é essa, que dia mágico, ter o privilégio de viver tudo isso não tem preço, senti coisas que nunca cheguei perto de sentir na vida, depois dessa experiência me senti mais segura para exercer a maternidade, no casamento reforçamos ainda mais os nossos laços e percebi que a nossa admiração mutua só aumentou, a forma de olhar um para o outro e ouvir dele “Ainda bem que você me convenceu, foi lindo e foi muito bom poder participar ativamente” e eu também agradeci muito a Ana por me apresentar esse universo, parir e estar atuante não tem preço, passar por essa vida e viver tudo isso foi mágico…

Acho curioso quando as amigas me perguntam: “Aline, mas e a dor?”, hoje eu sei responder: “Não tenha medo, a dor é você!”

caparelatosofia

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