Relato de parto domiciliar – o nascimento do Saulo

Relato de parto domiciliar – o nascimento do Saulo

Conhecemos a Taís e o Alex em uma de nossas rodas de conversa. Poderia ser uma história de qualquer outro casal esperando por seu bebê, mas, desde o primeiro dia, vimos que os dois tinham um “quê” de especial: a vontade de entender mais sobre o universo do parto e a força que foram descobrindo em si mesmos ao longo da gestação foram marcantes para nós. Desenvolvemos um vínculo maravilhoso ao longo do processo (e depois também!), por isso é um prazer e uma honra poder divulgar o relato de parto domiciliar dos dois – sim, ambos nos presentearam com suas impressões daquele dia!

Para nós fica a imensa felicidade por este nascimento maravilhoso, que foi do jeito que vocês sonhavam. Agradecemos pela confiança, pelo carinho e por ter permitido que fizéssemos parte desse momento tão especial! 


Relato de parto domiciliar – por Taís

Certa vez ouvi que se preparar para o parto é como fazer uma viagem. Fazemos um planejamento, escolhemos um roteiro, pontos turísticos a serem visitados, organizamos a mala..mas as paisagens, a brisa no rosto, o sabor da comida e a experiência das emoções.. só “caindo na estrada” para sentir. Com o parto, definitivamente, acontece a mesma coisa. Por mais que a gente leia sobre, pesquise, converse e tenha uma ideia teoricamente de como será, a vivência, na prática, é única, individual e costuma vir para quebrar nossos paradigmas.

Desde o início do meu processo, tentei trabalhar bastante minha cabeça, meu sentimento de entrega e doação para promover o melhor encontro possível com meu filho. Só desejava que o momento dele fosse respeitado. De qual forma seria? Bom, por vários motivos pessoais, eu desejava ter um parto normal. Mas que se precisasse ser encaminhada para uma cesária, eu entenderia como a parcela de escolha do meu filho e tentaria ao máximo não ficar frustrada. Não seria minha primeira opção, mas estaria tudo bem.

E assim fui me organizando durante a “espera”. Fiz yoga para gestante, pesquisas na internet, busquei ouvir experiências de amigas e descobri as rodas de conversas (de grupos de doulas e a da equipe Parto por Amor), que eu e Alex começamos a frequentar para ouvir outros casais e nos ambientarmos um pouco mais nesse tema. Todo o acompanhamento de pré-natal estava sendo feito com uma médica particular, que atende pelo meu plano de saúde. E seguimos com ela até quase na reta final da gestação, pois estávamos abertos às várias possibilidades de parto.

À medida que fomos frequentando as rodas e tirando dúvidas, identificamos mitos e medos naturais sobre o assunto e conseguimos apaziguar nossos corações. Visualizamos o respeito, a humanização e a segurança que se preza no parto domiciliar e, ao mesmo tempo, fomos também criando vínculo e estreitando os laços de afinidade e confiança (fundamentais) com as enfermeiras obstétricas da equipe, escolhendo Márcia e Mari para nos acompanharem nas etapas seguintes. Pronto: começamos a acreditar que o parto domiciliar seria possível e a partir dali começamos a fazer o pré-natal também com as meninas. Meus exames, bem como os critérios de condições da gestação para maior segurança nossa só nos reforçavam a escolha por esse caminho.

No meu caso, havia uma diferença grande entre as datas prováveis de parto (pela data da última menstruação e pela primeira ultrassom), e confesso ter me “boicotado”apoiando a ideia da data mais distante, na esperança de ter “mais tempo” e acreditando que teria algum controle. Mera ilusão! As quarenta semanas estavam previstas para mês de março, mas com 38 semanas completas “meu mundo caiu”.

Alex tinha viajado à trabalho e entrado em casa há uns 40 minutos (tempo para tomar banho e meditar). Eu falava para ele que após a janta iria começar a organizar as malas de maternidade (minha e do Saulo, para caso de possível transferência hospitalar). Mas, ao levantar da mesa, minha bolsa rompeu e eu simplesmente entrei em pânico. Eram nove horas da noite. “Aleeex”, eu gritava. “Olha isso!” e era muita água que descia (na minha lembrança quase uma cachoeira, tamanho foi meu susto). E ele, escutando meu grito, veio correndo quando se ajoelhou perto de mim e disse: “Calma, Moça, é a bolsa. A gente queria que fosse na hora dele e chegou”. “Eu sei, a hora é dele, mas não é a minha. Tô f…., o que eu faço agora?”, falei me tremendo toda. “Calma, toma um banho e deita”, ele me sugeriu.

Em frações de segundos, várias coisas me vieram à cabeça: “Meu Deus, e agora? Tá, o piso não pode ficar molhado. Pega pano pra secar esse chão, por favor. Vou tomar banho e você me deixa. Quanto mais pedir pra eu ficar calma, mais ficarei nervosa. Só faça o que eu falo e me deixa no meu ritmo, por favor. Ligue para as meninas, avise o que aconteceu e num papel comece a ir anotando para monitorar quando vierem as contrações”. Pedido feito, pedido atendido. Entrei para o chuveiro tremendo e durante o banho tentei respirar, rezar, fazer meus pedidos, entregas, cantar meus mantras, o que quer que fosse ajudar naquele momento. Banho tomado, Alex no telefone com as meninas. Uma leve cólica começando (como se fosse menstrual) e eu fui deitar? Não..fui arrumar a casa! Afinal, tinha chamado a fotógrafa.kkkk Organizei malas de maternidade (minha e do Saulo), pasta com documentos, troquei roupa de cama, toalhas, varri o apartamento, tirei lixo, enfim, coloquei as coisas “em ordem”e separei o material que as meninas pediram também (protetores para colchão e sofá, lona plástica..afinal, teríamos uma piscina/banheira inflável na sala do apto logo mais).

Bom, fiz isso tudo sentido leves cólicas e ficando mais tranquila para quando Saulo quisesse chegar. Putz! Não deu tempo de gravar a trilha sonora que separei para o parto. Oi? Graças a Deus não deu tempo. Durante todo o processo, o silêncio foi uma companhia mais do que necessária e que me permitiu ficar mais conectada comigo. Queria ouvir só minha respiração e meu corpo “falar”. Deitei por meia hora no máximo e às duas horas da manhã as contrações começaram. Já pra valer e constantes. Os intervalos é que eram mais espaçados no início, mas já mantinham a frequência. Alex anotava todas, monitorava, avisava as meninas. Eu tentava andar pela casa e voltava para a cama. Me encolhia para ver se a dor na lombar aliviava um pouco e nada. Às quatro horas da manhã estava gemendo durante as contrações e Alex ligou pra Mari: “Acho que agora engrenou de vez”. “Passa o telefone pra Taís”, ela pediu. “Não quero falar com ninguém”, eu respondi gemendo de dor. “Tudo bem, estamos indo”, ela disse.

Chegaram aqui em casa e eu tentava comer uma tapioca, que já não descia. Na sequência, alternava posições para tentar alívio na lombar durante as contrações..bola de pilates, chuveiro quente. Me lembro de pedir pra Márcia registrar no celular dela alguma coisa. “A Débora (fotógrafa) não vai chegar à tempo”, eu dizia. “Vai, Chuchu, fica tranquila. O “monstrão” ainda está longe”, ela me disse. Aff..eu não sabia qual seria a dimensão da dor nas etapas seguintes. E realmente ela tinha razão. A Débora chegou e as dores aumentariam consideravelmente depois.

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Fiquei no que chamam de “partolândia” por não sei quanto tempo. E Alex também me acompanhou nesse sentido. Foi à padaria, preparou café para as meninas e não lembrava depois. Foi correndo fazer feira, providenciar frutas para mim (segundo ele a mais rápida que já fez na vida). Eu lá, no meu processo, não vi nada disso. Mais bola, mais chuveiro, experimentei posturas da Yoga e posições que antes não imaginei que poderiam ser confortáveis nesse momento, mas que no final das contas foram minha salvação. Nos quatro apoios (ou de quatro) na minha cama, por exemplo, fiquei bastante tempo. Ali afundava o rosto no travesseiro e gritava e chorava, no meu tempo. Não me preocupava se os vizinhos estavam ouvindo. Expurgava meus monstros, pedia meus perdões, atravessava meu túnel, fazia minha caminhada ao encontro do meu filhote. Alex me acompanhava também nesse momento. Como que numa despedida de nós mesmos, permitindo (re)nascermos com outras funções (dali em diante como pai e mãe), numa sintonia de abraço e choro, entre meus gemidos e soluços, expressávamos nossa cumplicidade.

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Me lembro de explicar para as meninas como virar a mesa da sala e organizar o espaço para colocarem a piscina/banheira inflável. “Vai lá parir, mulher. Deixa que a gente arruma isso”, Márcia falou. E quando a tal ficou pronta, com água morna, enfim, coloquei o pé e falei que não iria entrar ali. Vai entender?! Kkk Essa história de ter o parto na água não seria para mim. A sensação da água quente me deu a intuição de que prolongaria o trabalho de parto e naquele momento eu queria mesmo era que acabasse logo. Foi quando perguntei pelo Alex e Márcia me disse: “Ele foi meditar e pediu para ser chamado se a cabeça do Saulo aparecesse”. “Foi o quê? Puta que p…”, gritei. Pôxa! Eu aqui tendo contrações e ele encontrando o guru em paz. Kkk Também me lembro do quanto as massagens que a Mari fazia na lombar me aliviava as dores. E usou óleo, e lavanda. Piscina abandonada, meditação finalizada, Márcia e Alex também alternavam nas massagens em minha lombar. Enfim, todos ali tentavam carinhosamente me ajudar.

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Voltei para a cama por mais um tempo e sentia agora o Saulo fazendo mais esforço para sair. Seus movimentos quase como que tentando sair, e não conseguindo, voltava. Na contração seguinte tudo de novo. Mas a lombar já “gritava”. Entendi que o momento poderia estar se aproximando do tal “expulsivo”. Foi quando vi perto de mim a banqueta e pensei na hora: vai ser ali. Intuitivamente estaria mais próxima de como sempre me imaginei naquele momento: quase que de cócoras, mas com assento, teria um apoio para aliviar os joelhos (que já “gritavam” porque fiquei de quatro e fiz muitos agachamentos). Concentração total nos movimentos do Saulo, contando com o apoio do Alex, que esteve ainda mais presente e perto de mim. Ele ficou sentado na bola de pilates, bem atrás da banqueta, e me abraçou por trás o tempo todo. Eu falava ”faz bolinha”, querendo que me abraçasse fazendo uma curva/concha, para envolver a minha coluna. E quase quebrei a mão dele de tanto apertar. Tadinho!

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Sentia que me aproximava do ápice, que tudo o que passei me levava para aquele momento. Minha intuição estava certa. Márcia me disse que a hora de encarar o “monstrão” (da dor) de perto era agora. Durante todo o percurso, só pensava que a dor faria parte da minha “viagem”; seria necessária, mas poderia estar a meu favor, não ser maior do que eu. A cada contração eu pensava que era uma a menos, que eu estava mais próxima de encontrar o meu filhote. E assim, concentrada no meu corpo, feliz por ele estar agindo, deixando a minha natureza feminina trabalhar, no som da minha respiração e dos meus gemidos, sentia meu corpo arder; uma febre de calor. Eu transpirava muito e o calor do corpo todo me aproximava da sensação de “queimação” do momento em que a cabeça dele “coroava” em meu canal vaginal.

Nesse instante senti que estava muito próximo conhecê-lo e até ali não tinha me lembrado da possibilidade de uma anestesia. Só chamava “vem, filhote” e sentia ele correspondendo. Estava tão concentrada naquele momento até a “passagem” da cabeça que quando ela passou, o Saulo “passou” de uma vez só, numa única contração e eu levei um susto: “O que é isso?! O que é isso?! Gente?!”. Uma sensação de entrega, de leveza, de alívio, de transferir compromisso, de ser intermediária com o cosmos e de conexão mais próxima com o divino (provavelmente a maior que eu vá experimentar nessa encarnação).

Naquele segundo, o “mundo parou”; não pensei em mais nada! Fiquei atônita, inebriada de susto, de gratidão; meu corpo explodiu em choro, em alívio, quando meu filho finalmente veio para os meus braços. Chegou abrindo os olhinhos, com jeitinho desconfiado e curioso; e só depois chorou, provando a força dos pulmões e nos deixando “bobos”, literalmente. Alex me abraçava e eu com ele nos braços…nos olhamos, choramos, em surpresa, em gratidão, conectados e entregues a esse (re)encontro de almas nessa encarnação. Nossa família se ampliava, na prática, e ganhava naquele instante uma nova proporção de sentido e emoções.

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Ele ficou um bom tempo conosco, no colo, e ainda com o cordão umbilical. A dor e o desconforto na lombar, que eu tanto senti durante as contrações, pararam na hora. A placenta sairia logo em seguida. Colocaram ele em meu peito para a primeira “mamada”..uma sensação nova e estranha. Meu corpo sangrava, as lágrimas desciam e nós ali, em êxtase. Me lembro do quarto estar quente/morno e numa atmosfera de aconchego. Caía um dilúvio de chuva lá fora e as meninas fecharam o quarto todo e diminuíram as luzes para ficarmos mais nessa atmosfera intimista e de boas-vindas para o Saulo. É muito carinho.

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Saulo veio ao mundo às 13h08 da tarde do dia 23 de fevereiro, depois de 11 horas de trabalho de parto ativo. Nós três ficamos um tempo juntos ali na cama; Alex cortou o cordão e as meninas orientavam em todos os detalhes, vibrando conosco, sempre profissionais, seguras, atentas e carinhosas. Conferiram reflexos do Saulo e falaram suas medidas: 3,2 kg e 54 cm. Mais acompanhamentos, conversas, deixaram ele com vernix (sem banho), colocaram roupa nele, tiraram foto. Alex fez macarronada para almoçarmos e me lembro da Débora me levar na cama e me dar na boca. É cuidado de doula dessa fotógrafa incrível.

As meninas organizaram boa parte das coisas antes de saírem e nos deixaram os três ali, no nosso quarto, nos conhecendo aos pouquinhos. Tinha passado um terremoto de emoções, um turbilhão de coisas em pouquíssimo tempo que, confesso, ainda estou em processo de compreensão. Enquanto estive na partolândia não vi a noite passar, o dia amanhecer e nem escurecer depois; sequer vi que tinha chovido. Mas alguns momentos, e principalmente detalhes e apoios humanos, ficarão especialmente guardados em minha memória e em meu coração.

Cada palavra de apoio e incentivo da Márcia e da Mari no meu ouvido. O fato de elas terem respeitado o meu plano de parto e em momento algum terem me feito o toque ou terem me falado com qual dilatação eu estava (eu tinha pedido para só fazerem em último caso e para não me falarem da dilatação, para que não me desestimulasse ou me lembrasse da possibilidade de pedir anestesia). Pelo contrário, com todo o respeito, pedindo licença e avisando o que fariam a cada vez que escutavam o coração do Saulo com um tipo de sonar. Jamais vou esquecer do momento de conexão e choro do meu companheiro comigo, juntos, abraçados, quando eu estava sofrendo com as contrações na cama. E comigo, e de novo, e diariamente me ajudando a superar os desafios do puerpério que viria em seguida. À Débora, pelos registros tão sensíveis, e palavra amiga em momentos oportunos. Obrigada a cada um de vocês. Agradeço também à equipe Parto por Amor, por suas rodas e cada momento de troca. Que essas iniciativas perdurem. Que as informações circulem, cheguem, e que mais mulheres voltem a ser protagonistas desse fenômeno maravilhoso que é o parto.

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Relato de parto domiciliar – por Alex

Taís me gritou. A bolsa rompeu por volta das 21:00, no dia 22/02/2018, aproximadamente 40 minutos após eu chegar de uma viagem a trabalho. O que pude fazer naquele momento era buscar acalmá-la, ainda que meu coração também estivesse acelerado, e eu disfarçando. Pedi a ela para tomar um banho e descansar, ela preferiu organizar algumas coisas pela casa, para ela uma terapia.  Fiz contato com a Márcia e a Mari (enfermeiras obstetras da equipe “Parto por amor”). Saber que tínhamos as duas sempre por perto era pra mim o melhor calmante naquele momento. (Durante todo o pré-natal, respondiam nossas mensagens quase que  instantaneamente). Após cerca de 5 horas da bolsa rompida, Taís começou a contrair. Conforme Mari e Márcia haviam me instruído, registrei a hora e o tempo de duração das contrações. Assim subsidiaria as duas, inclusive para tomarem a decisão de quando seria necessário irem para nossa casa. Ao longo da madrugada (que passamos em claro) as contrações se intensificaram. Por um instante, pensei que havia demorado demais para ligar para a Mari (durante a madrugada, preferi ligar pra ela, confesso que numa solidariedade ao time para o qual eu estava entrando: Márcia tinha filhos). Aguardei ansioso pela chegada das duas, torcendo para Saulo não fazer “desfeita” e esperá-las para o parto. Curiosamente, as contrações diminuíram assim que elas chegaram. Talvez o corpo da Taís, após se contrair intensamente como se quisesse falar pela própria, tenha se acalmado ao vê-las presentes. Era sexta-feira, seis da manhã. Nossa casa estava vazia de frutas, sexta é o dia em que fazemos feira. Márcia percebeu a ausência e perguntou se havia algum mercado próximo, justificando que era importante tê-las para Taís se alimentar durante o trabalho de parto. Fiz a feira mais rápida da minha vida. No retorno desta, que fica a duas ruas de casa, passei na padaria e comprei pães para o café da manhã, pelo menos é o que Márcia e Mari dizem. Devo ter passado tão rápido na padaria que não deu tempo nem da minha memória registrar o acontecido. Débora Silveira, a fotógrafa/doula/videomaker que contratamos, chegou pouco tempo depois, por volta das 07:00. Daí pra frente, a beleza da narrativa audiovisual registrada e construída por ela me pouparão muitas palavras, que seriam ainda insuficientes diante da força de seu registro. Daqui pra frente, privilegiarei descrever o que as câmeras e lentes não registraram: pensamentos, impressões e reflexões minhas durante o trabalho de parto e pós-parto da Taís, e não necessariamente em ordem cronológica.

Através da Taís, tomei consciência que onde há força, pode haver vulnerabilidade também, não são características antagônicas. A concentração, a imersão em si, a determinação, a firmeza, estavam ali junto com as dores, o choro, os gemidos.  Em momento nenhum ela pediu anestesia.  Em certa ocasião, já no expulsivo, ela apertava minhas mãos com tanta força…quase que aquela foi necessária para mim. Algumas horas antes, ainda durante as contrações de preparação, as dores físicas dela doeram em meu coração. Encostei meu rosto sobre a nuca dela, lembrando vários momentos que juntos havíamos vivenciado até aquele momento. Quanto mais um chorava, as lágrimas do outro desciam. Tive a impressão que ela, assim como eu, nos despedíamos de nós mesmos. Era o parto e nascimento do Saulo, mas também de uma outra Taís, um outro Alex, um outro casal. “Caía a ficha” para mim. Durante as rodas de conversa promovidas pela equipe “Parto por amor”, pude ouvir relatos de parto incríveis, assim como depoimentos de várias mães sobre a experiência de parir. Várias daquelas mulheres, sem esquecerem de relatarem também as dores e os desafios pessoais inerentes ao processo de parir, não se cabiam em lágrimas, emoções transbordavam, e as palavras pareciam insuficientes para descreverem algo que se evidenciava tão potente e transformador. Enquanto homem, ao ouvir tais relatos, um encantamento e (confesso) certa pontinha de inveja me tangenciava. Mas tive um privilégio (literalmente, pois infelizmente tanto as informações quanto o acesso ao parto humanizado, inclusive o domiciliar, ainda não são universalizados no Brasil, e os custos do serviço privado são inviáveis para a maioria). Ao poder optar, inclusive clinicamente, pelo parto domiciliar, sinto que a Taís me abriu, com apoio da Mari e da Márcia, a possibilidade de me aproximar talvez daquela que seja a mais sublime experiência do ser mulher. Ainda que diante de um muro instransponível desse universo feminino, por ter nascido homem, sinto que abriram uma janela para que eu pudesse respirá-lo junto com elas. E que experiência. O ar deste universo me fez bem, desejo ele aos homens que puderem respirá-lo também.

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