Relato de parto domiciliar: o nascimento do Tintim

Relato de parto domiciliar: o nascimento do Tintim

Um nascimento tranquilo e amoroso só poderia ter um relato assim! Veja que bonita a história da chegada do Tintim, filho da Gabriela!

Parto domiciliar assistido pela equipe Parto por Amor.


 

Tenho dois filhos. As duas gravidezes não foram planejadas, mas abraçadas com todo amor e dedicação que o pai e eu pudemos dar a essas vazões do insconsciente. Eduardo nasceu dia 30/07/2014 num parto humanizado hospitalar, com circulares de cordão, com a bolsa, com a mamãe de cócoras sendo sustentada pelo papai. Não houve anestesia nem episiotomia nem imposição de posição para parir, foi um parto respeitoso, uma boa experiência para nós.

Quando descobri a segunda gestação, com um sonho com minha mãe que me anunciava um tempo de tormenta seguido de bonança, após firmar o meu desejo nessa nova etapa da maternagem, asseverei: quero que seja em casa. Algumas coisas passavam pela minha cabeça/coração de mãe: não quero que a primeira noite que eu durma sem meu filho (a dpp era pro mês que ele completa 3 anos, ele mamou até o quinto mês de gestação) seja justamente a da chegada de um novo membro na nossa família; não quero estar no ambiente hospitalar, se não for preciso, para lidar com a experiência do parto novamente (nós nos mudamos entre uma gravidez e outra para a nossa casa efetivamente e aqui é o lugar onde me sinto mais segura no mundo e uma outra coisa: por protocolo hospitalar, tomei antibiótico na veia no primeiro TP em razão de strepto b positivo mesmo não tendo bolsa rota). Comecei o pré-natal no SUS com a primeira pessoa que soube da gestação- minha amiga amada Julia Morelli, minha companheira de gestação do primeiro filho e a médica de família da minha família. Até o fim Julia esteve conosco, sendo ombro firme e cuidado amoroso em cada escolha nossa. Terminei o pré-natal em casa com minhas EOs, que coisa ótima foi ter esses acompanhamentos! Visão global da saúde da família e cuidado em casa são divinos, todos merecem!

Cada gestação é única, mas as histórias que já carregamos ajudam a conhecer nosso corpo e nossas esquinas emocionais, passei então pelas ondas de cada semana imaginando os recursos que deveria ter para lidar até o fim (e reconhecendo meus limites também, com 35 semanas voltei pra terapia depois de 3 anos afastada). Muitas coisas aconteceram e muitos planos não aconteceram ao longo do tempo, mas eu nutri a perspectiva do parto em casa em todos os momentos (teve mudança de planos de equipe, mudança de yoga, chá de bebê que não rolou, enfim, lista longa…).

Lá pelo sétimo ou oitavo mês fechamos a nossa equipe, que contaria, além das enfermeiras obstetras do Parto por Amor (escolhidas depois de muita procura), com a participação da minha amiga também muito amada e companheira de gestação duas vezes – a Helena, minha doula. Se na época dos nossos primeiros filhos o apoio dela foi fundamental pra minha amamentação, agora seria pro parto.

A gestação do Eduardo durou 39 semanas, senti a primeira cólica dos pródromos com 39+3 e ele nasceu com 39+5. Me preparei pra trabalhar pelo menos até esse momento nessa gestação pra não perder a licença depois. Quando a semana 39 iniciou já tinha rolado escalda pés e troca de lua, eu via uns primeiros tímidos sinais no meu corpo e me preparava pra o momento que viria. Era a última semana de aulas e trabalho, fechava as coisas dia a dia, sem saber quando seria minha nova oportunidade de trabalhar, fazer yoga, discutir um texto, mas sem muitas expectativas também.

Acordei às 6h do dia 29/06 com uma cólica dolorida. 39+3. Com a mesma IG e no mesmo horário da primeira gestação, eu sentia os sinais do trabalho de parto. Pedi que marido levasse filho pra escola e fosse trabalhar. Sabia que até o fim do processo poderiam se passar dias (foram mais de 48h entre a primeira dor e o nascimento do meu primogênito) e eu queria/precisava fazer a minha despedida da barriga. Das 8h às 13h eu chorei, cantei, dancei, conversei com minha mãe em pensamento (esse é o décimo ano de seu falecimento), escureci toda a casa para me conectar com meu filho e meu corpo. Tomei banhos, fiz um chá de canela, comi chocolate, arrumei os cantinhos da minha casa e lavei a louça – me preparei e preparei o ambiente para a chegada do Tintim. Esse momento foi maravilhoso. Eu recebia muito bem as dores, entendia o processo, gostava dele. Às 13h marido chegou, eu almocei (muita comida!!), senti um breve desligamento daquela entrega toda da manhã e combinei com ele que faríamos uma caminhada de 14h as 15h, de modo que desse bastante tempo pra ele pegar o pequeno na escola depois. As contrações estavam com algum ritmo, mas eu não cronometrei, não queria pressões e ansiedades nesse momento. Fomos caminhar. Alisson e eu somos muito reservados e não lidamos bem com a intromissão de desconhecidos, mas resolvi correr o risco de dar dez passos e parar pra uma contração ciclicamente em público. Pretendia caminhar uma distância cinco vezes maior, mas parei no mercado próximo, fui ao banheiro duas vezes e me abaixava pra ver o preço de um produto imaginário sempre que a contração vinha enquanto comprávamos chocolate. Só uma pessoa nos abordou em todo o trajeto, justamente em meio a uma contração e marido lidou bem, protegendo a situação. Essa hora passou voando e eu só queria voltar pra casa pra ir pro chuveiro. Aí a coisa pegou mesmo e desisti de querer ficar sozinha. Demandei a presença do Alisson e meu filho foi buscado na escola pela dinda que estava de sobreaviso. Devia ser 15:30h nesse momento que eu senti que era pra valer e que talvez não demorasse 48h de novo.

Em algum momento chegou a Camila, a EO que eu escolhi no primeiro momento que vi em uma roda de conversa. Ouviu os batimentos do Tintim, falou rapidamente comigo, fez uma massagem e ficou por perto. Depois chegou a Helena com mais massagens, um apoio muito conhecido e desejado e um corpo também grávido, no qual muitas vezes me apoiei pra suportar a contração (com culpa, hehe). O Alisson estava ajudando a preparar a casa para o parto, mas eu não consigo sem ele, demandava sempre sua presença porque estamos nessa juntos e sentir ele do meu lado é muito importante pra vencer o processo. Nisso Eduardo chegou da escola, me viu sofrendo, perguntou porque eu gritava, acolheu a explicação que lhe deram sobre não ser triste e sim a chegada do irmão, me deu um beijo, fez carinho e quis ir brincar no quarto com a dinda.

Comecei a pedir a piscina porque no lugar onde eu tava – nesse momento, o chão do meu quarto – não rolava uma posição possível pra aguentar. Eu gritava o máximo que conseguia para tentar “ganhar das contrações” (uma ideia que eu também tive no primeiro TP, mas que demandou menos intensidade, ou é como me parece hoje), minha sensação era de puro desespero, as dores eram avassaladoras demais pra eu passar sem o mínimo de segurança com a posição que estava. Empurrar a cama não era bom o suficiente, agachar também não, levantar a pelve também não. Pensava que eu precisava garantir um bem estar mínimo que eu tive no parto do Eduardo, pois se eu passasse ainda muitas horas daquele modo eu não conseguiria.

Demandava a piscina a cada intervalo entre as contrações, mas ela não estava preparada ainda. Eu não sabia da minha evolução – assim como no primeiro parto, pedi novamente pra não saber a dilatação e dessa vez não foi feito nenhum toque em mim durante todo o TP 💜💜.

Assim como no primeiro parto, o tampão não havia saído antes e nem a bolsa, então eu realmente não tinha parâmetros de duração daquilo tudo. As pessoas que estavam comigo, contudo, sabiam que estava prestes a acontecer e quase todos foram lá tentar acelerar a piscina que eu tanto pedia, já que sabiam que Tintim podia nascer ali no quarto mesmo. A bendita piscina ficou mais ou menos pronta e lá fui eu. Entrei, meio que deitei, veio uma contração, senti o pequeno alívio da água quente, mas nada que eu achasse ser suficiente pra levar o processo até o fim. Olhei pra Ana, a EO que estava na minha frente, e vi que ela não estava de luvas, pensei que poderia demorar.

Mais uma contração: saiu a bolsa e eu senti. Vi que a Ana já estava de luvas. Rs “Agora vai, pensei eu”. Mais uma contração e senti a cabeça forçando, descendo e saindo. Aconteceu aquele momento que nos vídeos parece mágico: a cabeça saiu, a parturiente sentiu e ficou ali, mas eu só pensava “pelo amor de Deus, arranquem logo essa criança pra esse desespero acabar, mete a mão e puxa ele, Ana”. As únicas palavras que saíram da minha boca pra traduzir tudo isso, contudo, foram “ajuda, ajuda”, ao que a Ana respondeu com um olhar de carinho e força muito bonito, que me encorajou bastante sem saber da violência que eu secretamente desejei que ela praticasse. Rs.

No meio disso mais uma contração e senti o giro do corpinho e pensei “vai sair, nem que eu tenha que fazer força até amanhã” – nessa altura eu só queria que acabasse o mais rápido possível. O curioso é que mesmo estando muito mais consciente do meu corpo e do que é parir (talvez justamente por isso) eu não sentia vontade de fazer força para que o neném saísse, eu sentia vontade de ajudar a abertura do canal vaginal (por isso abria bem a boca quando gritava) mas não de fazer o puxo. Em duas contrações ele saiu, Ana amparou e imediatamente me entregou. Eu peguei meu neném, senti ele em meu colo, meu mais velho ouviu e veio correndo do quarto. Ficamos ali os quatro num eterno segundo e todos estavam invisíveis à nossa volta. Tudo parou e recomeçamos como 4 que são uma família nova, mesmo já sendo família, como 4 que se reconhecem numa unidade de amor e acolhimento.

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De novo eu não chorei, eu me emocionei profundamente mas estive todo o tempo consciente da minha importância ali por inteira, sem nenhuma dimensão solta. Tintim não foi separado de mim nos primeiros minutos pra nada. Mamou assim que quis. Chorou só um pouquinho, bem fininho pra garantir que estava tudo bem. Quando o peguei achei que parecia prematuro de tão pequeno e magrinho, mas na verdade ele veio maior e mais gordinho que o irmão, pesando 3250g e medindo 51cm. Logo ao levantar da piscina senti que a placenta nasceria, escorrendo por mim. Assim foi, chamei a Ana pra amparar também. Fui pro meu quarto, me aninhei com minha família em minha cama e tudo fazia sentido no conforto do meu lar tão cheio de vida. Mulheres muito amadas me rodeavam, os homens da minha vida completavam minha felicidade, que ficou gigante quando meu pai também chegou e se reuniu conosco.

Novamente lacerei e precisei de dois pontinhos. Fui cuidada pelas mãos muito doces da Flávia, que me avisava de tudo que faria e era sempre delicada. É muito diferente quando os pontos acontecem no conforto da sua cama, a seguir de um banho revigorante, e não na frieza do hospital. Depois do carimbo da placenta, todo mundo ainda ajudou a arrumar a minha casa pra rotina se assentar.

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Jantamos, o mais velho foi dormir com o pai, fiquei lambendo a cria nova e depois descansamos todos, passamos nossa primeira noite como família assim juntinhos, no nosso lar.

Não posso dizer que saiu tudo como o planejado porque acho que foi tudo melhor do que eu esperava.

No Brasil, os protocolos para parto domiciliar são mais rígidos do que nos EUA e em países da Europa, é realmente muito tranquilo optar pelo parto em casa se a gestação for de risco habitual e o bebê estiver bem no trabalho de parto. Evidências científicas demonstram que é tão ou mais seguro que o hospital o ambiente da casa para uma mulher que já pariu. O mesmo monitoramento que é feito no hospital é feito pelas enfermeiras obstetras/obstetrizes em casa no TP. Se você é elegível pra parto domiciliar, confie na sua capacidade de parir e na sua equipe, não hesite em viver esse momento de maneira tão especial e respeitosa. Juntas, gestante e equipe traçam planos a, b e c para o parto e as chances de um desfecho ruim são menores do que nos partos hospitalares, inclusive pela necessária ausência de intervenções no parto em casa.

Meu filho nasceu como meus pais nasceram, pari como minhas avós pariram (e também a Gisele Bündchen, a Bela Gil, entre outras) e assim me sinto também mais conectada com a minha história, socialmente construída, e a minha fisiologia. Pari com música, com vela, com água, em casa. Poderia ser de mil jeitos, mas foi desse jeito assim, bem bonito e muito natural. Pena que não deu tempo de chamar a fotógrafa pra eternizar essas memórias lindas.

Que todas as mulheres possam ser tão respeitadas como eu fui, tão bem cuidadas como eu fui, tão amadas como eu fui. Agradeço a todas que me rodeavam, ao meu marido (fundamental para todas as minhas decisões) e aos meus filhos – por me ensinarem antes mesmo de nascerem tanto sobre tempo e amor.

Gabriela Azevedo

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