Relato de parto: Daniele relata seu parto hospitalar

Relato de parto: Daniele relata seu parto hospitalar

Receber relatos de parto é muito gratificante para nós! Leia a história da Daniele, que pariu com respeito e confiança no SUS ao lado do marido e da Mariana Zukoff, enfermeira da equipe Parto por Amor.


 

Meu relato é uma forma de agradecer a esse grupo, que me ajudou muito durante a gravidez. Eu lia relatos todos os dias, entrava no grupo mais de uma vez por dia pra ver as histórias nos comentários, tava um vício já…rs e cada relato ia me fortalecendo, me dando a certeza que a minha busca por um parto normal respeitoso não era besteira, e não era algo impossível e distante de mim.

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O parto do Antônio aconteceu no dia 25 de abril, às 20:45h na Maternidade Maria Amélia-RJ. Tive o acompanhamento da equipe PARTO POR AMOR, representada pela maravilhosa enfermeira Mariana Zukoff, que ficou comigo em casa durante o dia. Meu plano era ficar em casa o máximo possível e ir para o hospital quando já estivesse com dilatação avançada, e assim foi feito.

Queria começar meu relato fazendo algumas observações:

1- fico um pouco chateada quando vejo algumas mulheres aqui dizendo “ainnn não tenho coragem de ir pro SUS”, sem nunca ter botado o pé numa unidade pública de saúde. Bora assumir que o nome disso é preconceito, e preconceito é feio?! A maternidade pública pode não ter a mesma hotelaria da particular, mas não é a hotelaria que vai te dar um parto normal. É mais provável que no hospital particular vc seja atendida por um plantonista recém-formado, que por não ter muita experiência, provavelmente vai encaminhar pra uma cesárea mais “segura”.

Eu nunca tinha sido atendida pelo SUS, mas estava na carência do plano de saúde, pois mudei de plano no mês que engravidei (sem saber da gravidez) e encarei numa boa a perspectiva de usar um hospital público, sabe por quê? Porque eu vivo há anos em hospitais públicos, trabalhando ou estudando, e sei da capacidade dos profissionais que estão ali. Sei o quanto a maioria dos funcionários públicos (na qual me incluo) se esforça para dar conta do serviço, sei que ali estão pessoas que tem profundo amor por suas profissões e por seus pacientes, pessoas que estudaram e prestaram um concurso, pois escolheram trabalhar pelo SUS. É uma pena que alguns poucos maus exemplos façam tanto estrago e manchem a imagem da maioria.

2- Pra quem não tá nem aí pro desmonte do SUS e acha que tá bem na fita só porque paga pelo plano, vamos recapitular: vacinas, transplantes, atendimento de acidentados, cirurgias inovadoras, é tudo pelo SUS! E hoje em dia os melhores médicos especialistas não querem nem saber dos convênios, atendem somente particular, ou gratuitamente pelo SUS, onde são concursados (sou estudante de medicina e conheço muitos médicos bam-bam-bam assim). Então quem acha que não precisou nem vai precisar do nosso sistema público de saúde, provavelmente está enganado

Dito isso, vamos ao trabalho de parto em si:

No domingo 23/04 (39 semanas e 2 dias) fui ao banheiro e saiu uma “gelatina” transparente, era parte do tampão. Tentei não me animar, pois tinha lido relatos de mulheres que perderam o tampão duas semanas antes do TP. Eu tinha passado o fim de semana ansiosa, tinha perdido o sono duas noites seguidas, não queria ficar mais ansiosa pois sabia que isso atrapalharia a progressão das coisas. Então botei na cabeça que o Antônio viria só em maio, e que eu tinha que relaxar. Me programei pras atividades daquela semana pensando: vida que segue.

Na madrugada de segunda 24/04 acordei às 4h com uma cólica leve, fui ao banheiro e saiu um pouquinho de sangue. Apesar de racionalmente saber que era normal, não consegui dormir de novo. Mandei mensagem pra Mariana pra confirmar se era normal mesmo…rs A Mari disse pra eu me distrair, pra não focar na ideia do parto, e eu segui isso. Aproveitei o dia pra fazer bastante comida e congelar, arrumei a casa, enfim, fiquei me mexendo. Eu sabia que não ia conseguir desfocar se ficasse deitada no sofá vendo série da netflix, preferi me ocupar. Durante o dia tive várias contrações doloridas, que incomodavam e me faziam parar de dor. Mas de noite eu ainda disse pro meu marido: são contrações bobas, ainda não deve engrenar. Avisei a Mari que as contrações  estavam irregulares  e fomos deitar… Aí o bicho começou a pegar! Eu dormia por cinco minutos e acordava com uma contração, apagava e acordava. De manhã eu já estava cansadíssima, pedi pro meu marido ligar pra Mari porque eu não conseguia sair do chuveiro quente, e ela veio pra nossa casa às 6h da manhã. Eu tava crente que já tinha sentido a maior parte da dor, que ela ia chegar, fazer um toque, eu estaria com dilatação 8 e iríamos pra maternidade…. doce ilusão rs. Ainda bem que a Mari sabe das coisas, faltava muuuuuito por vir.

Ela não fez o toque quando chegou, mas passou o dia inteiro me ajudando, contando contrações, fazendo ausculta do bebê e me examinando de várias formas (acho que só de olhar pra mim, ela sabia em que estágio eu estava).

Durante as contrações eu saía andando, andar me ajudava a suportar a dor. A maior parte do tempo eu não conseguia sentar ou deitar, só ficar em pé. Mais ou menos depois da hora do almoço, a Mari me falou pra agachar durante as contrações, pra ajudar a dilatar e estimular a descida do bebê… pqp que dor! Quando eu agachava, ela massageava minha lombar pra me ajudar a suportar, mas mesmo assim eu chorava, chorava de dor.  Chegou uma hora que eu não conseguia parar de chorar, fui pro chuveiro e fiquei lá até me acalmar na penumbra, a santa Mariana na porta segurando o celular pra tocar as músicas. Estava muito desesperada e pensando em desistir. Foi quando saí do banho, e aí ela fez o toque: 7-8cm, e então fomos com calma pra maternidade. Chegamos na MMA umas 15:30h, a enfermeira da admissão fez outro toque e disse: 9cm, direto pra sala de parto. Acho que isso me gerou uma expectativa muito grande, tipo: “9 cm, tá perto, falta pouco, daqui a pouco eu vou sentir vontade de empurrar”. Mas a verdade é que eu não sentia vontade nenhuma. Umas 18h, antes da passagem de plantão, novo toque, acho que a outra enfermeira disse 8 cm. Eu pensei: caceta, ainda falta muito, eu não tenho mais forças, não evoluí nada!

A nova enfermeira que assumiu o plantão era conhecida da Mari, veio, fez novo toque, nada diferente. Elas me propuseram um exercício pra ajudar o bebê a rodar, mas eu tinha que ficar deitada na beira da maca quase caindo pra fora, confiando que meu marido e a Mari iriam me segurar pra eu não cair. Eu sou super medrosa pra essas coisas de acrobacia, além da dor eu morria de medo de cair! Nessa hora eu só repetia: não foi assim que eu imaginei, não era isso que eu queria! Passei a gravidez inteira lendo relatos de que a mulher sabia o que fazer, repetindo mentalmente que o meu corpo era capaz, etc… talvez eu tenha mentalizado um conto de fadas em que a mulher escuta a voz do mais profundo do seu ser, e no meu caso foi bem diferente.

Na hora eu não tinha instinto nenhum, nenhuma vontade, só o cansaço, um medo gigante, e a vontade que acabasse logo. Não lembrei de analgesia em nenhum momento, pois pra mim o pior não foi a dor, mas a parte psicológica. A enfermeira plantonista propôs romper a bolsa e eu aceitei, já estava no meu limite de forças e com zero de autoconfiança. Ao fazer o toque e romper a bolsa ela disse que o bebê tinha rodado, estava na posição certa (parece que a acrobacia da maca funcionou) e já no plano 3, aí ela disse alguma coisa parecida com “o bebê já tá aqui embaixo, você tem que ajudar. Na posição que está, fica difícil até pra operar”. Eu acho que a intenção era me animar, não me deixar desistir, mas eu fiquei ainda mais nervosa. Me bateu um desespero, uma insegurança tão grande, que aquela ideia da cesárea agendada que eu refutei por 9 meses me pareceu tão atrativa… Fiquei imaginando eu deitada, maquiada, tranquila e sem dor no centro cirúrgico (só delírio mesmo pra eu esquecer todas as desvantagens da cirurgia). Entrei em pânico imaginando que eu não ia conseguir parir e que dali algumas horas eu ia acabar indo pra uma cesárea de urgência, que toda aquela dor não teria adiantado e que eu ainda poderia colocar meu filho em risco. Não confiava mais no meu corpo, já tava super arrependida dessa história de parto normal e não conseguia me acalmar. Foi quando a Mari falou: “Dani, acredita em você, você sabe parir, falta pouco, coragem”.

Não sei quanto tempo passou, mas em algum momento a Mari me ofereceu pra ir pra banqueta, e a cada contração eu fazia força.

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Elas duas humildemente sentadas no chão, olhando por baixo e me estimulando: aí, Dani! Isso aí! Quando eu empurrava errado elas corrigiam: a força é aqui embaixo! Eu não fazia a menor ideia de onde empurrar, simplesmente seguia a orientação delas ao fazer força, pois estava fora de mim, queria que acabasse logo. Dessa parte eu não lembro da dor, nem do tempo que durou, nem se tinha música, só lembro que rezei muito, que pedia pra Nossa Senhora me ajudar e proteger o Antônio. Então meu bebê nasceu de forma mais linda, veio pro meu colo, eu e marido chorando…

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O pai cortou o cordão, a placenta saiu, o bebê foi pra pediatra. Aí veio meu chilique pós-parto, eu tive uma tremedeira e as pernas chacoalhavam, tava mega nervosa, não conseguia deixar as enfermeiras virem me examinar e dar os pontos… elas tiveram bastante paciência pra esperar eu me acalmar. Fiquei esperando aquela emoção, a sensação de vitória que todo mundo descreve, e não senti. A sensação de ter feito a coisa certa só veio no dia seguinte ao parto, depois que o nervoso passou. Foi quando eu finalmente agradeci a Deus e pedi perdão por não ter confiado que Ele estava cuidando de tudo.

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Claro que eu tenho vergonha disso, do pânico, do nervosismo, e só estou tendo coragem de expor a minha situação pra dizer que nem toda mulher segue seus instintos e sabe o que fazer, ou talvez a tensão do momento a impeça de ouvir essa tal voz interior… Nesse caso é fundamental confiar em alguém que conheça o trabalho de parto e te passe segurança, sabendo orientar o que fazer. As enfermeiras obstetras são perfeitas nesse quesito! Não vou cansar de agradecer à Mariana por tudo… ela não é apenas uma profissional excelente, o que ela faz é por amor, com respeito e dedicação. O nome #partoporamor é ideal pra elas!

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E um obrigada especial ao meu marido, que me respeitou e apoiou desde o começo, esteve aberto a ouvir, entender e então abraçar a ideia do parto normal. Durante o trabalho de parto, foi um super companheiro, cuidou de mim e foi corajoso até o final. Eu não teria conseguido sem eles!

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