Especial mês das mães – relato de parto da Luise

Especial mês das mães – relato de parto da Luise

O mês das mães vai chegando ao fim e a gente encerra nossas comemorações com o intenso e profundo relato de parto da Luise. A chegada da Maria mexeu tanto com ela (e com a gente) que é impossível não se emocionar a cada detalhe deste relato.

Confira!

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Relato de parto da Maria

Quando eu descobri que estava grávida, meu único pensamento foi “eu não quero essa criança”. E esse pensamento vinha de forma recorrente, ecoava em lugares que eu não queria mexer e, principalmente, amadurecer. Sei que muitas pessoas pensam que com tantos métodos contraceptivos, engravidar sem querer é impossível hoje em dia. Mas, parece que tudo acontece somente com o vizinho… Julgamentos e ressentimentos à parte, aqui começou a minha história com a Maria.

Em meio a um relacionamento intenso e recente, tivemos a notícia da Maria. E todos os momentos que já eram vividos de maneira tão veemente, passaram a ter formas e dimensões triplicadas.

Todos, absolutamente todos, aceitaram e apoiaram a vinda da Maria. Menos eu.

Tentei me acostumar com a idéia de várias formas. A primeira dica que me deram, dois dias depois, foi comprar a primeira roupinha. E assim o fiz. Mas nada acontecia. Aquela roupa significava tudo que eu não queria naquele momento. E foi tudo que eu não quis pelos meses da gravidez.
Então resolvi tentar encarar as coisas de maneira melhor, me convencer diariamente do óbvio: aquela criança ia nascer e minha vida ia mudar completamente.

Mas a cada privação, a cada vontade de sumir, de beber, de tomar um remédio pra dormir, eu ficava mais chateada por estar grávida. Eu tinha acabado de sair de um emprego e antes de entrar em outro, recebi a notícia.

E assim fui levando, alternando dias de aceitação com dias de muita revolta.

Bem, antes de ficar grávida, já conhecia o trabalho do “Parto por amor”, porque a Mariana é cunhada do Marcio (pai da Maria). Ouvia as histórias, escutava falar muito em violência obstétrica, parto humanizado, cesarianas desnecessárias e, principalmente, no amor depositado no trabalho feito pelo grupo.

Antes, quando pensava no parto, me perguntava quem se submeteria, por livre vontade, à dor do parto normal, podendo fazer uma cesárea; não entendia absolutamente nada da gravidez e muito menos do parto. Na verdade, a gentileza das pessoas comigo quando viam que eu estava grávida me surpreendeu, porque eu não era tão gentil e nem admirava a barriga das grávidas.

Tirando o lugar na fila e nos assentos, a gravidez só me chamava atenção pela agonia que dava olhar para os barrigões. Pra mim, era uma coisa bem objetiva: um ser dentro do outro, nascendo em nove meses e dando muito trabalho. (eu sempre adorei crianças, mas a idéia de ter uma era surreal pra mim).

Então, já que eu ia ter mesmo um bebê, resolvemos chamar a Mariana, conversar mais sobre o parto; os prós e os contras, os mitos e as verdades. Assistimos ao documentário “O renascimento do parto”, lemos muitas coisas e ficamos apavorados com tudo que fazem para forçar as mulheres a uma cesariana. Porque para mim, o problema não é a cesárea em si. Cada um escolhe o que achar melhor. O problema está justamente nessa escolha: tem que ser feita de forma consciente, muito bem informada.

Assim, escolhemos fazer o parto com a Mariana e com a Camila, de forma humanizada. Lemos ainda mais, nos informamos ainda mais, e a cada consulta era mais um encontro comigo mesma, com as minhas questões, com a realidade que estava por vir.

Tive poucas semanas de enjôo, nada de azia e muita falta de ar nos meses finais. Ninguém nunca tinha me falado dessa falta de ar, que é de chorar de tanto desespero. Fora ela, a gestação foi ótima.

As contrações falsas começaram cedo. Durante a última consulta do pré-natal, com quase 39 semanas, a Camila conseguiu sentir três. Eu já não agüentava mais a barriga, o calor, a falta de ar, o incômodo dessas contrações.

Na quinta-feira comecei a sentir um desconforto maior, dormi mal, não tinha posição, um desconforto na barriga.

Na sexta de manhã, o tampão saiu e não nos “disse” nada, já que poderia parir naquele dia ou em semanas. Mas, na verdade, não precisava que ninguém me dissesse nada. Eu sentia que ia começar a acontecer, que o momento estava chegando.

O desconforto na barriga aumentou e à noite fomos à casa da Mariana, que estava preparando sua festa de aniversário pro dia seguinte. Aproveitei para tentar distrair, fazer as unhas mas, quando chegou no pé, não deu mais pra agüentar ficar ali sentada. Tomei um Buscopan, mas o desconforto só aumentava.

Falei com o Marcio que não dava mais pra ficar ali e então, sem alarde, viemos pra casa. Antes de deitar, tomei mais um Buscopan pra garantir (a Mari sempre dizia que quando eu tomasse e não fizesse efeito, era um sinal do trabalho de parto), mas não adiantou.

Tentamos dormir, mas as contrações começaram a ficar regulares. Resolvemos então levantar e encher a banheira. Ficamos conversando e comecei a ficar agoniada com a dor. Não parava de andar de um lado para o outro.

O mais engraçado é que a mesma certeza que eu tinha de que ela viria, ia de encontro à dúvida se era mesmo o trabalho de parto. Perguntava ao Marcio de 5 em 5 minutos se ele tinha falado com as meninas, se era mesmo o que estávamos pensando. Perguntei 1, 2,… 20 vezes!

Logo depois de encher a banheira as contrações ficaram mais fortes. Vinham mesmo como ondas e depois iam embora. Lembro que ali veio meu primeiro choro, na banheira que era um alívio para as contrações.

Eu sabia que ia doer. Eu tinha me preparado para essa dor. Mas, na hora, descobri que nada pode te preparar para uma dor tão forte. É como esperar uma brisa e se deparar com uma tempestade.

Fiquei a noite toda alternando entre a banheira e o chuveiro. Tentei descansar, mas a dor que era de uma cólica bem forte começou a aparecer nas costas e foi evoluindo pra região sacra.
O dia foi amanhecendo, as dores aumentando e vindo cada vez menos espaçadas. Primeiro chegou a Mariana e depois a Camila. E meu Deus, quanto carinho, quanta tranqüilidade. Brincamos que pareciam duendes flutuando pelo apartamento. Antes de fechar os olhos numa contração, elas estavam; quando abria, meio minuto depois, já não tinha ninguém.

Prepararam o ambiente com velas e aromas; checaram os batimentos da Maria (que se mantiveram ótimos durante todo o trabalho de parto); ofereceram líquidos, comida, massagem… Seguraram a minha mão e me passaram a calma que eu já estava perdendo naquele momento.

Em algum momento depois de cair no choro o Marcio me disse: “Já se passaram 16 horas… Você está indo muito bem”. Eu já não agüentava mais. Estava sentindo muito sono, já que não dormia bem desde quinta-feira. Chorava olhando pra cama, porque só queria uma hora de descanso. Como se o trabalho de parto pudesse ser interrompido…

A noite de sábado chegou e, fora a exaustão, a dor já estava se tornando insuportável. Eu gritei diversas vezes que não agüentava mais, que ia morrer, que queria ir para o hospital, mas no fundo, eu sabia que se quisesse mesmo ir, arrumaria minhas coisas e iria. Naquela hora, dizer que não agüenta mais e continuar ali, é sua forma de pedir apoio, de pedir algum tipo de ajuda para passar por mais uma contração.

A Mari tentava me acalmar dizendo para eu pensar que também estava sendo difícil para Maria, pra conversar com ela. Eu olhava pra cara dela e dizia “Difícil pra ela? Como assim? É ela que está saindo de mim!!!!”

Algumas horas depois, eu pedi para Mariana me tocar… Estava sentindo uma pressão, queria fazer força e ao mesmo tempo não queria. Queria ficar sozinha e com todos em volta. Queria ficar no chuveiro e queria ficar seca, de roupa. Queria tudo e não queria nada.

Bem, a Mari me tocou e estava com 5 de dilatação (na verdade eram 4, mas ela disse 5 para me animar). E aí eu não queria mais. Fiquei um pouco mais no chuveiro mas o cansaço era tão grande, que eu não conseguia ficar mais ali. Comecei a me arrumar e elas começaram a se preparar para a transferência. Era dia 13 de fevereiro. Dia do desfile das escolas campeãs, tudo parado. Não demoramos muuuuito para chegar, mas as contrações no carro foram bem difíceis. Uma mistura de sentimentos, a posição desconfortável. Ansiedade e desespero para chegar logo ao hospital. Porque quando você decide ir, quando chega no seu limite, parece que um minuto vai ser crucial pra sua dor.

Chegamos, a médica plantonista fez o toque e, sem saber que eu já estava em casa há 24 horas, disse: “você está ótima, está indo muito bem. Já tem 2 de dilatação”. Chorei, gritei, me desesperei de novo. Como assim 2 de dilatação?

E aí, ela me disse algo que por um minuto, entre uma contração e outra, me fez lembrar o motivo de querer passar por tudo aquilo, de querer tanto uma equipe humanizada. Quando perguntei se a minha obstetra, Dra Fernanda, já estava a caminho, ela me respondeu: “Olha, ela já está vindo sim. Mas, se você quiser, eu resolvo isso muito rápido. Não precisa ficar sentindo essa dor toda. Te dou anestesia, te opero rápido e vai tudo embora”.

Não, não era isso que eu queria. Eu queria ter a minha filha de parto normal, como tinha planejado. Queria que ela nascesse mais saudável, que minha recuperação fosse mais rápida. Que as horas que fiquei em trabalho de parto até ali, não fossem jogadas fora, porque não havia indicação alguma para cesárea.

E aí está o papel da equipe que você escolheu; o papel dos profissionais que te acompanharam, avaliaram suas expectativas e foram junto contigo até o final, de um propósito que você traçou: não te deixarem desistir.

Não se engane. Com dor, você vai pedir uma cesariana. Você vai gritar, vai chorar, vai desistir mil vezes. Vai dizer que está morrendo, que estão querendo te matar. Vai falar com todas as letras que não quer mais, que o plano inicial já era. Mas essas pessoas, que sabem da tua vontade real e não daquela vontade mascarada pela dor, estarão ali; te incentivando, te apoiando, tentando fazer você segurar mais um pouco, e mais, mais…

Mas mesmo tendo esse lapso de consciência, em poucos segundos que o Marcio me deixou sozinha na espera, fiquei procurando algo cortante. Não digo que cortaria a barriga, mas também não garanto que não cortaria. É simplesmente um mundo à parte.

A Dra Fernanda chegou e aí eu pensei “meus problemas vão acabar agora; acabou a dor”. Fomos para um quarto (e não para um centro cirúrgico). Esperamos por mais 20 minutos o anestesista e, então, descobri que na verdade seria uma analgesia. Foram 30 minutos sem dor. Depois, voltaram as contrações, o desespero, a vontade de morrer. Eu não conseguia visualizar a Maria saindo de mim. Pra mim, aquilo não ia acontecer e talvez fosse pela negação toda da gravidez, desde o início.

A temperatura ambiente e a penumbra que tinha em casa, continuaram no hospital. Todos em silêncio, ao meu lado. Na hora da analgesia, a Dra Fernanda me abraçou, colou testa com testa. A Mari e a Camila ao meu lado, segurando a minha mão. Colocaram uma música de boas vindas à Maria. O meu desespero ia de encontro a toda calmaria que elas me passavam. Todo carinho que eu podia sentir, mesmo com toda dor.

O período expulsivo veio e eu o defino com suor e lágrimas. É uma força além de você. Ainda que você queira descansar mais e não fazer força em uma contração, o seu corpo não te permite escolher. Uma força que eu não faço idéia de onde vem. Muito tempo sem respirar, poucos segundos de recuperação e lá vinha outra contração.

Eu só queria escutar de alguém que não dava mais. Queria que alguém parasse o tempo pra eu poder descansar um pouco; que alguém surgisse com outra solução que não envolvesse dor. Eu já não agüentava mais. Era como ser torturada sem que ninguém pudesse fazer nada.

Mas aí vinha outra contração e eu não podia deixar de empurrar. E outra, outra… até que a Maria começou a coroar e ficou ali por um tempinho. Lembro da última força que eu fiz pra ela nascer. QUE ALÍVIO!

Ela veio para o meu colo, quietinha, já mamando. Olhei pra equipe e todos muito emocionados. Eu peguei aquele bebê tão pequeno, depois de tantas horas e ali eu soube o que é amor de verdade. Ficamos ali, nos olhando, ela segurando o dedo do Marcio e só depois de um bom tempo a levaram para pesar – na mesma sala, perto de mim ainda.

Só aí escutamos seu choro. A Mari se aproximou dela, falou do mesmo jeito que falava com ela na barriga e pronto, ela ouviu sua voz e parou de chorar. Que momento mais lindo pra gente. Como tudo aquilo fez ainda mais sentido, por nos reafirmar a participação dela durante todo o processo. A confirmação que de verdade, aquele serzinho precisa de muita proteção desde a barriga, quando já está percebendo tudo que acontece aqui fora.

Mais uma contração, a placenta saiu… Dez minutos depois eu já queria levantar, tomar um banho e comer. Já estava sentada na cama de pernas cruzadas. Ainda assustada com o parto, ainda detestando ter passado por tudo aquilo, ainda me sentindo torturada, mas absolutamente feliz por não ter que depender de ninguém para segurar minha filha no colo, por não ter levado um ponto sequer.

Chamou muito a minha atenção o dia seguinte. Absolutamente todos os profissionais que entraram no meu quarto, no quarto de uma MATERNIDADE, se espantavam com o parto normal. Uma delas disse “então foi você a corajosa do hospital”. A outra me disse que nunca havia visto um parto normal… Em uma maternidade.

Isso é assustador, revoltante, absurdo e reafirma a importância desse grupo que eu escolhi para me acompanhar. Desse trabalho que elas desenvolvem que hoje parece ser realmente de formiguinha, em meio à esmagadora massa que, por mil motivos completamente errados, fazem da cesariana a via “normal” do parto.

Bem, eu não sei dizer os termos apropriados, não sei o que de fato aconteceu em termos médicos e também já não me lembro mais de tudo detalhadamente. Mas deixei para comentar aqui, quase no final, um dos principais papéis da equipe que eu escolhi. O papel do Marcio.

Nosso relacionamento à parte; todas as dúvidas, medos, conflitos à parte. Tudo de mais conturbado à parte. Foi isso que eu tive do Marcio em relação à Maria. Desde que eu descobri que estava grávida, ele quis muito a nossa filha, e entendeu, muito antes de mim, a beleza dessa relação que estava por vir. E ele foi assim até o final. A cada contração, a cada grito, dor, desespero, ele ficou comigo, participou de tudo, cortou o cordão umbilical. Ele estava presente mesmo, entregue de coração para aquele momento tão especial nas nossas vidas.

Em todos os momentos que eu relatei aqui no texto, ele certamente estava presente, segurando a minha mão, me observando de longe. Sofrendo, da maneira que lhe cabia, mas sofrendo junto comigo, super emocionado. Só foi descansar porque as meninas disseram que seria bom dar esse tempo para mim.

Então hoje, junto à todas as lembranças que eu tenho do parto, as partes mais doces se devem a ele, que quis muito e que acreditou muito também, mesmo quando tinha alguma dúvida. Cada sussurro de força, de palavras de amor e de coragem, ficarão eternamente gravados em minha memória nesses instantes tão meus, que ele fez com que fossem tão nossos.

Então para sempre, à parte de tudo que diga respeito ao nosso relacionamento, ele estará presente nas minhas melhores lembranças, com todo carinho e gratidão, que hoje carrega junto também o meu amor.

O parto não é doce, bonito e mágico na hora em que acontece. A dor, que dizem que não é de morte, não se mostra diferente naquele momento. É pura e simples, na sua forma mais intensa. Com dor, eu só queria que aquela agonia parasse, e jogaria todos os planos por água abaixo, mandando ir para o inferno aquele papo todo da gravidez de humanização.

Mas depois que a minha filha nasceu eu entendi. Entendi o que significa trazê-la ao mundo com mais segurança, com mais saúde, em um ambiente preparado especialmente para nós duas, nós três. A intensidade do parto foi tão grande; foi uma doação de energia tão surreal, que eu tenho certeza que não poderei experimentar isso em qualquer outra experiência na minha vida.
Depois dela, eu entendi a minha mãe. Entendi verdadeiramente todas as frases de desespero – que para mim era até então desnecessário – que ela falava quando qualquer coisa acontecia comigo.

Entendi esse sentimento mágico, que com certeza não há como sentir por qualquer outra pessoa no mundo. Vi o respeito que as mães merecem, “apenas” por serem mães.

Me tornar mãe foi algo transformador. Foi um verdadeiro encontro com tudo que eu queria deixar de lado, tudo que lá no início também me atrapalhou a aceitar a gravidez. Ser mãe é um enfrentamento diário das minhas questões… É sinônimo de superação. Hoje, tenho certeza que sou uma pessoa muito melhor do que há alguns meses.

É claro que o fato de ser mãe não transforma alguém em uma santidade. É que, em verdade, você entende a santidade que existe em gerar um outro alguém, o seu verdadeiro amor.

Obrigada Mariana e Camila, por terem me acompanhado nesse momento tão único na minha vida. Por terem me ajudado a enxergar que a humanização do parto começa por nós, por cada mínima escolha na construção de um sentimento tão maior.

Ser mãe é muito mais complexo do que a escolha da via de um parto mas, com certeza, essa escolha consciente, é o início das opções que fazemos única e exclusivamente por amor. Amor a nós mesmas e aos nossos filhos. Amor, simplesmente por amor.

2 thoughts on “Especial mês das mães – relato de parto da Luise

  1. Uau! Não sou mãe, acho que não quero ser, mas fiquei emocionada com o relato. Parabéns pelo trabalho de dar mais que um parto, dar amor e conhecimento.

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