Especial Dia das Mães – Relato de Parto da Carla

Especial Dia das Mães – Relato de Parto da Carla

Para esse dia das mães, a gente quis trazer um conteúdo especial. Para isso, convidamos algumas mães que pariram com a nossa equipe para contar como foi e relembrar esse momento tão incrível que é o nascimento de um bebê.

Com vocês, Carla Sento Sé relatando o nascimento da Maria. Preparem os lencinhos!

***

A descoberta – nosso milagre

Muitos dizem que a mulher sempre sabe quando está grávida.

Eu não sei se já sabia… Mas meu corpo foi mostrando sinais, dia após dia.

Com uma semana de fecundação, passei a sentir ondas de cólica (a famosa cólica da nidação). Eram hiper suportáveis e realmente eram ondas. Nunca havia sentido isso antes. Cheguei a comentar com a Rachelli, durante o plantão e ela disse: ¨Você está grávida!¨. E eu respondi: ¨Não estou não¨. Na verdade, eu queria muito estar, mas tinha medo de criar expectativas.

Ao mesmo tempo, comecei a me interessar por tudo o que estava ligado ao universo dos bebês. Passava horas na internet pesquisando sobre quartos montessorianos.

Poucos dias depois, durante um plantão, lá fui eu fazer uma atividade rotineira: organizar o armário dos materiais de histopatológico. Foi abrir a porta do armário e o vômito chegou com toda força a boca. Fechei o armário imediatamente e respirei fundo. Isso nunca havia acontecido.

Neste e nos demais plantões, tornou-se uma missão impossível examinar qualquer gestante. Era eu ser chamada, entrar nas salas de parto e os odores (nunca antes percebidos) eram insuportáveis. Era uma vontade absurda de vomitar. Era muito muito muito enjoo. E, eu sempre falava para os demais profissionais do plantão: ¨Nossa, creio que pode ser uma vaginose. Temos que ficar de olho¨. E, todos os profissionais eram categóricos: “Não estou sentindo cheiro nenhum”. Ali comecei a desconfiar que realmente eu poderia estar gestante e meus olhos se encheram de lágrimas.

Como controlava minha temperatura basal, percebi que dia após dia ela se mantinha lá nas alturas, com mais ou menos 0,5º acima da média. E aí, a fase lútea, que geralmente durava 12 dias, já tinha 23 dias.
Completado uma semana de atraso menstrual e com 24 dias de fase lútea, decidi fazer o TIG, sem contar a ninguém. Eu não queria gerar falsas expectativas, principalmente no Rapha, que estava louco para ser pai.

Comprei o teste no dia 27 de novembro. Guardei-o e decidi fazer só no dia 28. Fiz o xixi, armazenei no potinho e lá coloquei a tal da fita. Imediatamente apareceram duas listras super fortes. Eu não podia crer no que meus olhos viam. Fiquei muito nervosa. Tremia-me por inteiro. Era tanta felicidade que eu não cabia em mim.

Na mesma hora sai do banheiro, ajoelhei-me diante do altar de Nossa Senhora de Fátima e agradeci. Chorei muito e agradeci. Naquele momento Entreguei e Consagrei meu filho a Ela. Naquele momento agradeci e disse a Maria que carregava em meu ventre mais um filho dEla. E agradeci a oportunidade de gerar no meu ventre um milagre de Deus.

Eu não sei quanto tempo passei ali, ajoelhada. Mas nunca me esquecerei desse momento, quando não me sentia ali, mesmo estando ajoelhada no chão. Foi mágico.

Eu estava radiante. Estávamos com uma viagem marcada a Petrópolis no dia seguinte. Era um bate volta super rápido. Então, decidi que só contaria ao Rapha no dia seguinte. Eu queria fazer uma surpresa.

O dia 29 de novembro amanheceu e com ele chegaram os primeiros vômitos (era uma baita hiperêmese se anunciando, mas eu só saberia disso nos próximos dias). Foram 6 episódios em menos de 1 hora, mas nada estragava minha felicidade. Eu vomitava, colocava a mão no ventre e dizia: ¨Fique tranquilo aí, não é culpa sua. A Mamãe te ama muito¨.

Os vômitos se seguiram e devo ter chegado a uns 20 episódios pela manhã. Mas, eu queria fazer a surpresa para o Rapha. Entre um vômito e outro consegui produzir um móbile de feltro, com corações rosa e branco (as cores foram escolhidas para combinar com o teste de farmácia, que também era rosa e branco). Pendurei o teste na ponta do móbile e entre os corações uma tarja escrita “agora em mim batem dois corações por você”. Pendurei-o na porta do quarto que já era reservado para quando o bebê chegasse.

Fechei todas as portas e o móbile era super aparente. Aqui não tem nada pendurado nas portas. Então, era MUITO fácil visualizá-lo (#sóquenão).

Rapha chegou atrasado do trabalho e perguntou se já estava tudo pronto para viajarmos. Eu disse que não estava me sentindo muito bem, mas que ele tomasse banho para irmos. Ele abriu todas as portas, inclusive a do móbile e simplesmente NÃO VIU.

Repreendi-o e disse: “você não viu nada diferente na porta dos quartos?”. Ele respondeu: “não”. Ele retornou ao quarto, viu o móbile e com os olhos marejados e muito nervoso, olhou para mim e disse: “você está grávida?”. Fiz que sim com a cabeça, nos abraçamos longamente e choramos juntos.

Ali estava estabelecido o elo eterno entre nós 3. Éramos 3, mas naquele momento éramos apenas 1.
Esse foi o começo de uma jornada de 39 longas semanas de uma hiperêmese avassaladora, mas principalmente de interiorização.

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Ser Gestante e enfermeira obstétrica: uma dupla não tão “saudável”

Esse assunto merece um capítulo a parte (um dia escreverei sobre isso)

A Hiperêmese e eu

Descobrir-me grávida foi majestoso, como disse anteriormente. Mas, a gestação me trouxe a hiperêmese e essa não foi legal. Não mesmo.

Por ser enfermeira obstétrica, eu já havia cuidado de algumas gestantes com hiperêmese. Lembro-me de, durante a residência, ter ouvido a seguinte frase de uma profissional: “tem hiperêmese a gestante que não deseja o bebê. E por isso ela quer colocá-lo para fora, ‘vomitá-lo’”. Não… não era meu caso. Eu queria minha Pulga mais do que tudo.

Aqui abro um parêntese para dizer que não queríamos saber o sexo do bebê (na verdade, eu não queria e o Rapha acabou embarcando na minha… contrariando a expectativa de todos ao redor). Sempre achei a surpresa algo mágico. E, como o bebê sempre mexeu muito (comecei a sentir com 12,2sem), passamos a chamá-lo carinhosamente de Pulga.

A hiperêmese foi avassaladora. Fazendo uma conta por alto, com toda certeza vomitei mais de 1000 vezes durante a gestação. Cinco quilos a menos em 2 meses. Quem me conhece sabe que 5 quilos representa muito na minha superfície corporal (rs). Episódio de desidratação, hidratações venosas, medicações venosas, flebites, vonau, vonau, vonau… meu marido acabava com o estoque semanal de vonau da farmácia. A cura para a hiperêmese? A dequitação. Santa dequitação.

Mas a hiperêmese também serviu para me mostrar que sozinha eu não era ninguém. Eu, sempre extremamente independente para tudo na vida, não conseguia nem me alimentar. Recordo-me de passar uns 2-3 dias sem tomar banho. Aqui entra a Camila. Ela me salvou em váaarios momentos da gestação. A Camila é a irmã do Rapha, tia da Maria e enfermeira obstétrica que acompanhou nossa gestação e parto, junto com a Rachelli. Eu não sei o que teria sido de mim, ou melhor, de nós, sem a Camila. Quantas noites em claro, acordando de hora em hora (para amamentar o Bento, mas muito mais para cuidar de mim). Ela auscultou a Pulga pela primeira vez no Natal, quando estávamos com 8,4sem. Eu dizia: “Camila, lógico que não conseguiremos. São só 8,4sem”. E ela, toda feliz e cheia de calma disse: “Conseguiremos sim”. E foi só encostar o transdutor do sonar que lá estava aquele coraçãozinho batendo forte, a 164bpm.

Impressionante! Eu nem havia feito usg ainda… e já auscultávamos nossa Pulga com o sonar.

Eu tinha certeza que a hiperêmese melhoraria e me daria uma trégua após o 1º trimestre. Que nada! Ela foi muito minha companheira (mais do que eu queria!) durante toda a gestação. Até mesmo me impedindo de participar do fatídico chá de bebê. Sim, um chá de bebê surpresa que a grávida não compareceu! Aff

Abro um parêntese para dizer que por conta da hiperêmese tive todo o pré-natal acompanhado maestralmente pela Fernanda Macêdo. Eu tinha certeza que estava em ótimas mãos. A condução foi perfeita e com 35sem eu estava compensada e prontinha para o planejado parto domiciliar.

A escolha pelo PD

Quem me conhece se surpreendeu quando soube que a Maria nasceu em casa. Isso porque eu sempre disse que ela nasceria no hospital, que parto domiciliar não era para mim. Nunca fui contrária a ideia do PD, mas sempre tive a certeza que ele não era para mim (mero engano!). Mesmo trabalhando no centro obstétrico de uma maternidade pública e presenciando/vivenciando de tudo um pouco, não era problema para mim parir num hospital. Aqui abro um parêntese para dizer que não sou contrária ao parto hospitalar, não mesmo! Como disse, trabalho na sala de parto de uma maternidade e amo o que faço.

Mas, voltando as minhas razões… Antes mesmo da gestação da Maria, muitas amigas próximas pariram. Eu acompanhei alguns dos trabalhos de parto e fui visitar outras na maternidade. A cada vez que eu entrava numa maternidade particular, mais certeza eu tinha de que aquilo não era para mim. Rotinas burras, protocolos engessados, profissionais que mais pareciam gravadores de tão robotizados. Eu sempre saia dali com a pior das sensações, com a certeza de que aquilo não era para mim e também muito feliz em saber que, apesar de todas as dificuldades das unidades públicas, o trabalho da enfermagem era completamente diferente daquilo ali.

Assim nasceu a certeza de que quando eu engravidasse, o parto seria domiciliar. Eu e Rapha guardamos essa opção e nunca comentamos para ninguém (ninguém mesmo!). Até mesmo durante a gestação! Só nós dois e a equipe. Mais ninguém. Não me arrependo nem um pouco dessa decisão e faria tudo novamente. A pior coisa que tem são pitacos desnecessários e quando não solicitados. Somado a gestação, hiperêmese, impaciência (que me sobra, eu bem sei!)… ah, não daria certo mesmo ter que me explicar….

Fomos lindamente acompanhados pelas meninas durante todo o pré-natal. Muito amor e zelo a cada consulta. Elas sempre disponíveis a estarem conosco, nos horários loucos do Rapha… o pré-natal foi bem intenso, cheio de cuidados, extremamente bem acompanhado. Sempre assertivas, nada intervencionistas.

Nosso trabalho de parto e a chegada da Maria

Chegadas as 37sem, eu tinha certeza que antes das 40sem a nossa Pulga chegaria. Com 37,2sem consegui fazer o ensaio de gestante. Queríamos muito guardar essa recordação. Eu contraia muito durante o ensaio. Daí, avisei ao Rapha: “40sem que nada… não chegarei nem a 38sem”. Mero engano! Foram 2 semanas de alarmes falsos. Todos os dias eu contraía por mais de 1 hora, de forma ritmada… e elas simplesmente sumiam.

Fiz minha última consulta com a Fernanda na quarta, com 38,5sem. As contrações estavam ali… durante toda a consulta. Ela disse: “esse bebê é para esse final de semana”. Rapha saiu todo animado da consulta e eu falei: “Não se anima não. Esse bebê só fica dando esses alarmes falsos”. Ela estava certa.

Na sexta, com 39sem, recebi uma ligação do meu pai às 12h. Meu pai nunca me liga nesse horário, por conta dos horários loucos dele de trabalho. Até achei que poderia ter acontecido algo… mas ele apenas queria saber como estávamos. Conversamos um pouco. Desliguei e segui o dia normalmente.
O Rapha chegou tarde do trabalho, tomou banho, conversou um pouco comigo e foi deitar. Eu também deitei, mas estava sentindo algo diferente. O que? Sinceramente não sei precisar. Mas tinha a certeza que nossa hora estava próxima. Decidi levantar, fui ao banheiro e senti uma cólica abdominal forte (daquelas típicas que antecedem um episódio de diarreia). Dirigi-me ao quarto, acordei o Rapha e disse que provavelmente entraria em trabalho de parto aquela madrugada. Pedi que ele mandasse uma msg para a Camila avisando que talvez a acionaríamos (talvez, talvez, talvez mesmo).

O Rapha foi cobrir o colchão com o plástico (aff… como deixou para última hora, ele o cobriu de qualquer jeito e lá se foi um colchão para o lixo! Rs). Eu decidi ver se tinha separado as coisas… sou a organização em pessoa. E ali senti a primeira contração. Não foi uma contraçãozinha não. A primeira contração (às 23h da sexta-feira) já me fez ficar acocorada no chão. E eu pensei “huuuum” e “ishiiiii” ao mesmo tempo. Passada a primeira contração, ajoelhei-me as pés de Nossa Senhora, acendi a vela do altar e pedi proteção e luz para a chegada da Pulga.

Eu sempre tive no meu íntimo a certeza de que pariria rapidamente. Enganei-me feio! Foram 24 horas de trabalho de parto. Eu sabia que não adiantava ficar fazendo dinâmica uterina. Afinal, estava apenas começando. E decidi não fazer! Rapha começou a se movimentar, arrumou a sala, encheu a banheira… eu sinceramente não lembro o que fiz até às 6h (sempre achei meio louca essa historia das mulheres dizerem que não lembram de vários momentos do trabalho de parto. Mas posso confirmar que realmente esquecemos!). Eu só me lembro de alguns flashes. Tanto que hoje, na minha mente, eu não entendo como se passaram 24 horas. Rs

Um das coisas que lembro é que por volta das 6h o Rapha perguntou se já estava na hora de avisar as meninas. Ali percebi que ele já não estava dando conta sozinho. Fiz a dinâmica, estava 2/10’. Falei que ele poderia avisar sim, mas que elas viessem devagar porque ainda demoraria. Engraçado mas eu tinha em mim a certeza de que ainda faltava bastante para o parto.

A Camila chegou e o que eu lembro é que ela estava com uma faixa verde na cabeça. Vai entender o motivo pelo qual eu registrei essa informação. Rs Ela chegou de forma bem suave, sorridente. Eu disse que a cada contração eu sentia um incômodo na região ilíaca direita e que eu desejava muito que esse incômodo mudasse de lugar. Aff!!!!!!! Para que eu desejei isso?

Decidi ficar no chuveiro (ele foi meu companheiro durante a gestação toda! Tomava banhos looooooooongos sentada no box). Mas acho que ele encheu-se de mim. Ou eu dele! Sentia-me inquieta e não queria estar ali. Saí! Entrei! Saí! Entrei!

Decidi ir a piscina. A Camila fez-se invisível durante esse momento. Não só nesse como em muitos que se seguiram e isso foi perfeito para mim. Eu odeio interferências. Fiquei pouquíssimo tempo na piscina. Estava mega ultra power incomodada.

Voltei ao chuveiro, coloquei-me de 4 apoios e a bolsa rompeu. Olhei, vi que o líquido era claro e avisei a Camila. Sei que após a ruptura as contrações aumentaram absurdamente. O incômodo que antes era na região ilíaca passou para a região sacra. Putz… e que dor! Não sei descrever o que sentia. Era muita dor!

Um parêntese para dizer que hoje percebo que meus medos, anseios e dores da vida me acompanharam durante essas 24 horas. Santa Ana Cris Duarte, obstetriz, autora desse pensamento: “O parto não dói só de contração. No parto não parimos apenas a criança, mas as dores acumuladas. Parimos tensões, tristezas, repressões, raivas, abandonos, traumas, histórias. Isso explica em parte por que é tão fácil para algumas e tão intenso para outras”.

Foi bem isso. O trabalho de parto/parto não foi só da Maria. Pari uma carga pesada que me acompanhava. E por isso DOEU tanto. Então, reafirmo o que a Ana Cris disse: “tentem parir todas as suas dores antes do trabalho de parto. Do contrário, elas te acompanharão nesse momento”. E doeu… doeu… doeu. Mas, libertei-me! E essa sensação também foi maravilhosa. Hoje sou uma pessoa diferente… hoje sou só a mãe da Maria.

Mas, voltando ao trabalho de parto… lembro-me que em certo momento a Camila me perguntou se eu queria rezar o Angelus (eu amo essa oração e rezei-a diariamente durante a gestação). Sim, eu queria, queria muito. Rezamos o Angelus, nós 3… eu, ela e o Rapha… embaixo do altar de Nossa Senhora – a banheira foi estrategicamente colocada ali). Aquilo me deu muita força para prosseguir.

Eu era a inquietude em pessoa. Desliguei a playlist feita com tanto carinho para o trabalho de parto. Não suportava ouvir qualquer barulho. A vontade era jogar o computador do 8º andar. Ia, vinha… e decidi voltar ao chuveiro para ver se conseguia me concentrar. De repente ouvi uma voz doce e suave dizendo que estava tudo bem e que eu estava ótima. Era a Rachelli. Lembro-me de ter colocado metade do meu corpo para fora do box, ainda de 4 apoios. Ela me cobriu com a toalha, de modo que minha lombar ficou debaixo da água quente e o restante do corpo aquecido pela toalha. Ela me deu um abraço e eu desmoronei. Eu disse que não aguentava mais, que ela (um dia) não poderia querer aquilo para ela e que a culpa de tanta dor era dela e de todas as mulheres que amavam comer maçã… que a maçã era culpada das dores do parto… e a Rachelli riu de mim! Eu queria encontrar um culpado para tanta dor… então que fossem a Eva e a maçã, oras… rs

Eu gritei, gritei muito (fiquei completamente rouca após o parto). Um parêntese para dizer que nenhum vizinho acionou porteiro, bateu na porta ou afins. Sinceramente, acho que ninguém ouviu nada. Eu não sei por quanto tempo gritei… mas não eram gritos de desespero. Sentia necessidade de gritar quando a contração atingia o auge. Era como se o grito fosse um maestro de uma orquestra, da orquestra das minhas contrações. A sensação era a de que eu conseguia controlar o início, auge e término quando gritava. Hoje penso que era pura ‘sensação’ mesmo. Mas que na hora me ajudou… ah… ajudou.
Eu não sei quantas vezes pedi para ser transferida. Eu nunca pedi uma cesariana. Não que eu seja contrária a cirurgia (longe disso!). Mas, eu não a queria e internamente eu sabia que não precisava dela! Mas, que eu gritava para ser transferida, ah… eu gritava. Eu pensava numa analgesia salvadora da pátria! Mas ao mesmo tempo eu ficava pensando nas inúmeras analgesias que eu já havia presenciado e que não tiveram um bom desfecho.

Na verdade, todos os gritos e solicitações eram “da boca para fora”. Em nenhum momento me levantei ou me vesti para sair da minha casa. Eu estava ali e queria estar ali. E as meninas foram cruciais e perfeitas! Ofertaram-me inúmeras possibilidades para aliviar a minha dor… mas nada me ajudava. Nada fazia efeito! Na verdade, hoje sei que eu precisava passar por esse processo, que ele era meu e eu tinha que agarrá-lo, digerí-lo e expulsá-lo de uma vez por todas. E, como ninguém, as meninas respeitaram todos os meus momentos. Fui muito rude e grosseira com elas por diversos momentos. E elas só retornavam olhares de amor, cumplicidade e ternura. Deixei-as exaustas!

exaustas e felizes!

O Rapha foi tudo de melhor que alguém pode querer num acompanhante. Calou-se quando eu não queria ouví-lo e falou quando eu precisava ouvir algo. A cada contração eu tinha a necessidade de me manter de 4 apoios. A contração passava e eu me aninhava no colo dele, enrolada no edredon. Lembro-me que em um dado momento estávamos sozinhos no nosso quarto, na penumbra total… e ele chorou. Eu olhei para ele… nos olhos… e disse: “está tudo bem”. Aquele momento foi perfeito para mim. Ali percebi que precisava retomar as rédeas da situação. É como se vê-lo naquela situação tivesse me dado forças para seguir. Naquele momento senti que a nossa Pulga estava baixa… bem baixa… mas não tão baixa a ponto de nascer. Mas senti vontade de fazer força. E a cada contração eu fazia força, força, força.

Creio que pela mudança de sons emitidos (se eu não me engano já não eram os mesmos gritos), as meninas surgiram. E ali se passaram 4 horas de muitas contrações até a chegada da minha pequena, ali no nosso quarto. Só tive ideia de que 4 horas haviam se passado depois. Eu só queria que a nossa Pulga coroasse. Eu só queria que a nossa Pulga coroasse. Eu só queria que a nossa Pulga coroasse.

Ah… esses meus pedidos… rs. Quando coroou, eu não senti o círculo de fogo. Não mesmo. Eu senti uma dor óssea. Sentia uma dor púbica muito muito muito forte. A sensação era de alargamento ósseo mesmo. Ali tive a noção de que quem estava por vir tinha MUITO MUITO MUITO cabelo. Fiz carinho na cabeça dela e aguardei a próxima contração.

Com o grito da última força a cabeça desprendeu. A cabeça estava limpinha, limpinha, limpinha. Não havia vernix, não havia sangue. Eu disse que eu a receberia. Eu a recebi. No momento que eu a trouxe para mim, vi que era menina. A Maria estava limpinha… assim como a cabeça. Se eu não a tivesse recebido, poderia jurar que alguém a havia limpado antes de me entregar.

Meu mundo se completou. Naquele instante meu mundo se completou. Não falei absolutamente nada, aninhei-a no meu colo e tentei sentir um cheirinho doce que a Camila havia dito ter sentido no nascimento do Bento (Não, eu não senti! Nesse primeiro momento eu não senti! Mas, nos dias que se seguiram esse cheiro se intensificou tanto que por diversas madrugadas eu tinha vontade de comer a Maria, literalmente). Fiquei ali enroladinha com ela… olhando-a. Até esse momento só eu e Rachelli (sim, ela viu quando nasceu!) sabíamos que era uma menina. Em um dado momento alguém disse: “E qual é o sexo?”. Eu fingi que não sabia… desenrolei a Maria e disse: “é a Maria”. Os olhos do Rapha brilharam! Antes mesmo de estarmos grávidos, ele havia sonhado com Nossa Senhora de Fátima e nesse sonho ela revelava a ele que teríamos uma filha… uma menina… nossa Maria.

Pedi ao Rapha para trazer a imagem de Nossa Senhora e a vela… aquela luz acompanhou-nos durante todo o processo. Ele trouxe… ali eu rezei… agradeci… e consagrei a Maria a Nossa Senhora de Fátima… assim como já havia feito quando descobri a gestação. Foi um momento único e que eu levarei para toda a vida. Mesmo! Todas as vezes que passo algum perrengue com a Maria lembro-me que ela é consagrada e isso me acalma.

Curtimo-nos por um tempo… o cordão parou de pulsar… o Rapha cortou o cordão… a placenta dequitou… Hoje entendo as mulheres que já assisti. Elas reclamam bastante dessa parte. E realmente é bem incômodo. Eu sempre digo que sou a louca das placentas. Amo-as! Gosto de olhar ponto a ponto… gosto de mostrá-la… mas não o fiz com a minha. Vai entender. Mas esse momento chegará… ela ainda está aqui… guardadinha. Eu e Maria viveremos esse momento, juntas.

Lembro-me que em um dado momento pensei que ainda viria a parte chata das suturas. Ali a enfermeira obstétrica voltou a adentrar o meu ser e pensei: ‘caracas, ainda terei que passar por essa parte’. Olhei para a Rachelli e falei: “pode dizer que lacerou tudo”. Engraçado que eu não senti sensação de laceração na hora do nascimento não. Nem mesmo ardência. E a Rachelli, sempre com aqueles olhos ternos, disse-me: “Carla, não tem nada, nenhuma laceração”. Ufaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa. Acho que essa frase dela soou nos meus ouvidos como a mais bela das canções para aquele momento.

As meninas fizeram todos os cuidados com a Maria… ali… do meu ladinho. E eu só a ficava contemplando. Quando as meninas a pesaram eu disse: “2665g, né?” (não sei por qual motivo, mas eu sempre achei que meu bebê pesaria isso e falava a todos que me indagavam sobre parto que teria um filho com esse peso). A Rachelli falou: “2670g”. Caramba… que legal! Eu tinha uma percepção boa! Rs
Quando as meninas se despediram e nos deixaram… ali ficamos… eu, Rapha e a nossa pequena. Ele estava exausto. Eu não! A minha sensação era a de que eu ainda aguentaria por hoooooras. Não paramos de contemplar a nossa pequena. Sinceramente, eu não me recordo se consegui dormir.

Se eu mudaria algo? N-A-D-A! Aquele trabalho de parto foi nosso… foi meu… foi o necessário para eu me livrar de fantasmas impostos pela vida. Tive o melhor companheiro que alguém poderia sonhar. Tive a melhor equipe que alguém poderia ter. O parto foi meu… mas o mérito foi nosso. Tenho certeza que tudo só foi possível porque as meninas foram extremamente profissionais, sensatas, assertivas e amorosas. Não titubearam. Elas foram uma dupla perfeita. Depois soube que uma apoiou muito a outra. Isso é uma dupla! Nós, profissionais dessa área, sabemos a importância de uma dupla, da cumplicidade do olhar, quando precisamos tomar decisões, quando precisamos do apoio. Sim, nós profissionais também precisamos de afago.

Posso dizer que pariria mais umas 4, 5 vezes… quem sabe ganhando na loteria, né?! Rs

Aqui termino… agradecendo as meninas por tudo, tudo mesmo. Agradecendo ao Rapha por ser quem é.

Agradecendo a Maria por ter passado lindamente pelo processo. Sem vocês não seria possível, não mesmo!

E pedindo desculpas… desculpas a todas as mulheres que não tiveram seus momentos respeitados por esse sistema obstétrico medíocre. Sim, peço desculpas. Se antes as violências obstétricas me incomodavam, enojavam-me, tiravam-me do meu eixo… hoje elas me massacram!

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