Considerações sobre parto domiciliar e segurança: o que Veja não te contou

Considerações sobre parto domiciliar e segurança: o que Veja não te contou

Na semana passada, a Veja divulgou as conclusões de um recente estudo publicado no New England Journal of Medicine, que analisou 80 mil nascimentos no estado americano do Oregon entre 2012 e 2013. Como é frequente na mídia atual, é fácil notar o esforço para chamar a atenção do leitor de forma negativa. O título sensacionalista, o conteúdo raso da matéria e as conclusões apressadas e sem suficiente base cientifica que as sustente estão presentes na rápida nota que afirma que partos hospitalares são mais seguros que partos fora do hospital (em casas de parto ou em domicílio).

Notícias que se posicionam contra o parto humanizado e a autonomia da mulher na hora do nascimento de seus filhos não são novidade, mas elas abalam a confiança de muitas que estão em busca de informação e em processo de empoderamento para parir com respeito. Nesse sentido, é importante analisar o estudo que deu origem à tal matéria e pontuar algumas questões fundamentais:

– Nos Estados Unidos, país em que o estudo foi realizado, o parto domiciliar não é oficialmente aceito, encorajado e não está integrado ao sistema de saúde local. Logo, se uma mulher precisa de assistência médica no seu processo de parto ou após o nascimento do bebê, as equipes não só não estão devidamente preparadas para recebê-la e a comunicação entre médicos e midwifes (parteiras) não é satisfatória e regulada. Essa questão pode definir desfechos ruins;

– Nos Estados Unidos, as midwifes não precisam de graduação em enfermagem ou obstetrícia para conseguirem certificação. No Brasil, para atender um parto, somente alguns profissionais de saúde específicos possuem respaldo legal e preparação adequada (veja aqui quais são);

– Muitos partos incluídos no estudo, embora previamente planejados, não foram acompanhados por profissionais experientes e devidamente qualificados para tal. São considerados partos desassistidos, ou seja, não assistidos por profissionais de saúde com preparação formal. Existem diversos estudos em outros países em que as parteiras (as midwifes) que acompanham partos domiciliares têm seu trabalho integrado ao sistema de saúde e sua formação é baseada em exigências que as qualificam para este tipo de atendimento. Nesses países, os resultados demonstram que partos domiciliares planejados, em gestantes de baixo risco (risco habitual), assistido por equipes preparadas e certificadas, têm desfechos ainda melhores que os partos hospitalares;

– Uma parte do estudo leva em consideração recém-nascidos com óbito até 28 dias, sendo que, para configurar óbito perinatal, são considerados apenas 7 dias;

– O número de casos de partos domiciliares considerados é pequeno demais (cerca de 1900 partos). Uma vez que o número de desfechos é considerado usando recortes de, no mínimo, mil casos, esse número de análises pode enviesar as conclusões do estudo;

– Muitos casos de partos domiciliares presentes nesse estudo não são de baixo risco e não deveriam ser planejados para acontecer em domicílio. Bebês em apresentação pélvica, mulheres com diabetes, hipertensão e demais complicações optaram pelo parto em casa quando deveriam ter sido encorajadas a parir naturalmente no hospital;

Concluir rapidamente que parir no hospital é mais seguro que o parto domiciliar é roubar da mulher o direito de tomar essa decisão. Cabe ao profissional de saúde analisar cada caso, verificar o risco de cada gestação e informar a mulher para que ela decida, em corresponsabilidade com o profissional de saúde, o que prefere para o seu parto. É necessário fazer uma leitura mais imparcial de cada estudo e aplica-los à realidade de cada uma. Isso é humanizar o atendimento.

Também é fundamental que as mulheres saibam que, em caso de intercorrências, existem protocolos específicos e bem detalhados que são seguidos por qualquer equipe devidamente preparada para a assistência ao parto. Parir em casa não significa abrir mão da segurança, pelo contrário, equipes que atendem esse tipo de parto têm atenção especial voltada aos revezes que por ventura surjam. E não só na hora do parto, como durante todo o pré-natal. Qualquer elemento que sugira risco é imediatamente verificado, estudado e solucionado – e a solução pode ser a contraindicação do parto domiciliar, uma transferência ao longo do trabalho de parto ou mesmo intervenções de suporte à vida caso haja necessidade.

Para saber mais sobre a segurança do parto domiciliar planejado e as referências usadas para este texto, acesse:

É seguro parir em casa?
Resposta da Dra Melania Amorim – Facebook
Parto Domiciliar: direito reprodutivo e evidências
O mito do parto hospitalar mais seguro para gestações de baixo risco
Estudo diz que parto caseiro é mais seguro que o de hospital
Planned Out-of-Hospital Birth and Birth Outcomes, The New England Journal of Medicine

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